De Partos e mitos de descida.

fadinha

Engraçado como o fato de se estar grávida, faz com que você pense e repense uma série de coisas em sua vida. Diversas pessoas e livros falam dos famosos hormônios e suas variações de humor, Ok! Como bióloga concordo com eles e que não é fácil manter-se na linha por muito tempo, com os hormônios agindo loucamente dentro de nós

No entanto, creio que há outras questões por trás destes hormônios e nós mulheres que somos, mestras na arte do disfarce emocional, mascaramos de forma conscicente ou não estes sentires.

Para mim um deles, talvez o mais primevo e víceral seja o medo, por N motivos na minha vida;Sempre tive medo de ser mãe, e sempre vi esta questão muito ligada a morte, na minha mente infantil de anos atrás,  isso era assim associado devido a um sonho terrível que eu tinha, onde uma Eu mais velha corria por ruas estreitas e sujas, com uma trouxinha na mão e pessoas, homens me perseguiam.. quando finalmente me pegavam a trouxinha caia, e de lá um bebe morto..azulzinho de tão morto e de alguma forma, a eu do sonho se culpava por aquilo.Sei que é muito pesado um sonho deste para uma criança de seus o que? 12, 13 anos? Mas seja lá por qual motivo os Deuses me davam esse sonho ele ficou gravado em mim, e o medo da maternidade e a responsabilidade desta junto com o medo da morte sempre andaram juntos em meu intimo.

Pensando nisso tudo, nessas transformações e o medo do invisível e do desconhecido, como é a morte, acabei lembrando dos mitos de descida e jornadas do heróis, estes loopings que só a nossa mente dá quando  divaga olhando a paisagem do trajeto interminável nos trens da CPTM.

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Os mitos de descida são aqueles onde o herói ou heroína descem ao submundo, ou aos infernos, para confrontar sua escuridão, o seu maior inimigo, sua nêmesis, ou seja você próprio. Pois desta jornada é impossível retornar como se foi, pois a cada portal, cada provação, algo do seu Eu fica para trás, a fim de sair um novo ser, mas que não temos a consciência que ele emergirá, desta busca  sempre  se volta transformado, então de certo forma, há uma morte,a morte do que se foi e o nascimento do que virá a ser…o Feto deve se sentir assim, quando abandona o aconchego do útero para a rudeza deste mundo, pois seja da passagem da vida a morte ou da existência uterina a esse mundo  é impossível tocar o outro mundo sem ser tocado por ele. Na mitologia há vários exemplos de mitos que descrevem estas jornadas assim: Ulisses, Orfeus, Inanna, Core/ Persefone, São Brendan, Maleduin.

E aqui chego ao ponto de meus temores, pois vejo o parto exatamente como um mito de descida, o parto como uma morte, pois quando entramos nesta jornada, ninguém avisa, que nós em pouco tempo não seremos mais quem conhecíamos, sendo difícil as vezes reconhecer no espelho quem é aquele ser, mais que isso ao entrar em trabalho de parto, não há como saber quem vai surgir de lá..

Pois sei, que eu não serei mais a mesma eu, que sairá daquela sala de cirusgia, será alguém que ainda não conheço, alguém que me será apresentado aos pouco de acordo com as necessidades de outro ser que não eu. E assim também se obtém Soberania, entendo hoje a despeito de meus medos, a vocação de algumas mulheres em serem mães, pois assim elas vivenciam o poder das Deusas Matres, e da soberania, não de uma terra, mas de uma vida, e isso nos aproxima dos Deuses, a criação o permitir-se entregar ao medo e ao êxtase, ao total descontrole para que uma nova vida venha, assim e em última instancia o parto além de uma descida e o encontro com suas trevas é também o encontro com  um aspecto da soberania, aquele mais selvagem e primal, pois  a entrega ao desconhecido é uma das provas mais comuns na conquista de si próprio, e isso apavora, na mesma medida que deslumbra.

O fato é que este é o momento de mais fragilidade da mulher e também de mais força, é a luta primal pela sobrevivência, por excelência é quando nos unimos a todas as Deusas e mães naturais, independente se o parto será natural ou “ suavizado” pois será cesárea… nenhum deles deixa de ter riscos. E é se pôr a mercê dos Deuses para trazer uma nova vida é isso requer desprendimento demais, entrega demais, por que não tem como saber se  há volta desta jornada, e se a volta ocorre, como será esse voltar, como  será este retorno, pois assim como todos os mitos de Herói e mitos de Descida eles convergem, para este momento, o de ser  impossível voltar ao mesmo ponto, a mesma rotina ou ao mesmo lugar depois de descer e se modificar, mesmo que de pronto não reconheçamos estas mudanças, como disse  acima,  esse novo Eu será apresentado aos poucos a nós mesmo, para que o reconheçamos, e o integremos a nossa consciência mesmo sendo  amigo ou não.

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Estando tão mudada, eu vejo  como a partida aos portos cinzentos, mas no nível psicológico  e emocional,e não no físico,  assim é preciso  transformar o local de retorno, e a sua vida como um todo, é o abrir mão do conhecido desde a esfera mais densa e profunda de nós até a camada mais tênue  ao invés de abanadona-lo e seguir em frente como no Mito dos Heróis. No moderno e excelente Crônicas Arthurianas de Bernard Corwell,  Merlin se compromete com a busca do caldeirão e nele empenha sua vida pela busca,não pelo objetivo que é o caldeirão e sim pela jornada, vejo assim que os meus medos podem ser associados a entrega do Merlim na estrada escura, buscando o caldeirão, a diferença é que serei eu o caldeirão , como cada mulher o é quando passa por esta experiência, buscando restituir-lhe/ dar a vida  ao Merlim e ao mesmo tempo manter-se nela.

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