De Partos e mitos de descida.

fadinha

Engraçado como o fato de se estar grávida, faz com que você pense e repense uma série de coisas em sua vida. Diversas pessoas e livros falam dos famosos hormônios e suas variações de humor, Ok! Como bióloga concordo com eles e que não é fácil manter-se na linha por muito tempo, com os hormônios agindo loucamente dentro de nós

No entanto, creio que há outras questões por trás destes hormônios e nós mulheres que somos, mestras na arte do disfarce emocional, mascaramos de forma conscicente ou não estes sentires.

Para mim um deles, talvez o mais primevo e víceral seja o medo, por N motivos na minha vida;Sempre tive medo de ser mãe, e sempre vi esta questão muito ligada a morte, na minha mente infantil de anos atrás,  isso era assim associado devido a um sonho terrível que eu tinha, onde uma Eu mais velha corria por ruas estreitas e sujas, com uma trouxinha na mão e pessoas, homens me perseguiam.. quando finalmente me pegavam a trouxinha caia, e de lá um bebe morto..azulzinho de tão morto e de alguma forma, a eu do sonho se culpava por aquilo.Sei que é muito pesado um sonho deste para uma criança de seus o que? 12, 13 anos? Mas seja lá por qual motivo os Deuses me davam esse sonho ele ficou gravado em mim, e o medo da maternidade e a responsabilidade desta junto com o medo da morte sempre andaram juntos em meu intimo.

Pensando nisso tudo, nessas transformações e o medo do invisível e do desconhecido, como é a morte, acabei lembrando dos mitos de descida e jornadas do heróis, estes loopings que só a nossa mente dá quando  divaga olhando a paisagem do trajeto interminável nos trens da CPTM.

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Os mitos de descida são aqueles onde o herói ou heroína descem ao submundo, ou aos infernos, para confrontar sua escuridão, o seu maior inimigo, sua nêmesis, ou seja você próprio. Pois desta jornada é impossível retornar como se foi, pois a cada portal, cada provação, algo do seu Eu fica para trás, a fim de sair um novo ser, mas que não temos a consciência que ele emergirá, desta busca  sempre  se volta transformado, então de certo forma, há uma morte,a morte do que se foi e o nascimento do que virá a ser…o Feto deve se sentir assim, quando abandona o aconchego do útero para a rudeza deste mundo, pois seja da passagem da vida a morte ou da existência uterina a esse mundo  é impossível tocar o outro mundo sem ser tocado por ele. Na mitologia há vários exemplos de mitos que descrevem estas jornadas assim: Ulisses, Orfeus, Inanna, Core/ Persefone, São Brendan, Maleduin.

E aqui chego ao ponto de meus temores, pois vejo o parto exatamente como um mito de descida, o parto como uma morte, pois quando entramos nesta jornada, ninguém avisa, que nós em pouco tempo não seremos mais quem conhecíamos, sendo difícil as vezes reconhecer no espelho quem é aquele ser, mais que isso ao entrar em trabalho de parto, não há como saber quem vai surgir de lá..

Pois sei, que eu não serei mais a mesma eu, que sairá daquela sala de cirusgia, será alguém que ainda não conheço, alguém que me será apresentado aos pouco de acordo com as necessidades de outro ser que não eu. E assim também se obtém Soberania, entendo hoje a despeito de meus medos, a vocação de algumas mulheres em serem mães, pois assim elas vivenciam o poder das Deusas Matres, e da soberania, não de uma terra, mas de uma vida, e isso nos aproxima dos Deuses, a criação o permitir-se entregar ao medo e ao êxtase, ao total descontrole para que uma nova vida venha, assim e em última instancia o parto além de uma descida e o encontro com suas trevas é também o encontro com  um aspecto da soberania, aquele mais selvagem e primal, pois  a entrega ao desconhecido é uma das provas mais comuns na conquista de si próprio, e isso apavora, na mesma medida que deslumbra.

O fato é que este é o momento de mais fragilidade da mulher e também de mais força, é a luta primal pela sobrevivência, por excelência é quando nos unimos a todas as Deusas e mães naturais, independente se o parto será natural ou “ suavizado” pois será cesárea… nenhum deles deixa de ter riscos. E é se pôr a mercê dos Deuses para trazer uma nova vida é isso requer desprendimento demais, entrega demais, por que não tem como saber se  há volta desta jornada, e se a volta ocorre, como será esse voltar, como  será este retorno, pois assim como todos os mitos de Herói e mitos de Descida eles convergem, para este momento, o de ser  impossível voltar ao mesmo ponto, a mesma rotina ou ao mesmo lugar depois de descer e se modificar, mesmo que de pronto não reconheçamos estas mudanças, como disse  acima,  esse novo Eu será apresentado aos poucos a nós mesmo, para que o reconheçamos, e o integremos a nossa consciência mesmo sendo  amigo ou não.

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Estando tão mudada, eu vejo  como a partida aos portos cinzentos, mas no nível psicológico  e emocional,e não no físico,  assim é preciso  transformar o local de retorno, e a sua vida como um todo, é o abrir mão do conhecido desde a esfera mais densa e profunda de nós até a camada mais tênue  ao invés de abanadona-lo e seguir em frente como no Mito dos Heróis. No moderno e excelente Crônicas Arthurianas de Bernard Corwell,  Merlin se compromete com a busca do caldeirão e nele empenha sua vida pela busca,não pelo objetivo que é o caldeirão e sim pela jornada, vejo assim que os meus medos podem ser associados a entrega do Merlim na estrada escura, buscando o caldeirão, a diferença é que serei eu o caldeirão , como cada mulher o é quando passa por esta experiência, buscando restituir-lhe/ dar a vida  ao Merlim e ao mesmo tempo manter-se nela.

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Relacionamentos

Ou Reflexões da Juju.

                                               Com meu amor ao Tarcisio, por deixar minha alma crescer e ser meu Annan Cara.

Não é segredo que amo tudo ligado a cultura celta, sobre tudo a Irlandesa, assim leio constantemente, livros, crônicas, jornal, revistas lendas e histórias e frequentemente leio o mesmo livro e contos diversas vezes. Assim estou novamente imersa no mundo dos contos e folclore Irlandês,  tive um estalo de colocar em palavras algo que já tinha tido a algum tempo esta percepção, sobre os relacionamentos de hoje em dia, frente a clareza da mente e a nobreza de espírito da alma celta.

Num dos contos de Lady Wilde, há uma passagem em que um homem e uma mulher estão conversando sobre seu futuro relacionamento e a mulher pergunta ao homem:

“ – Harold, o que você mais quer neste mundo?

– Velejar nos barcos que construo, ter a liberdade proporcionada ao sentir o leme na mão e a condução de um navio, gostaria de singrar os mares e comercializar com outros povos.

– Sim, Vejo você fazendo isso – Diz Caolin

– Vê?

– Sim , caso, se case comigo”

A leveza como a futura esposa de Harold, conduz o diálogo para dizer-lhe que ela o ajudará e apoiará nas suas decisões presentes e futuras e que não o manterá num cárcere doméstico é tocante, e demonstra aquilo que deve ser a essência de todo relacionamento: O Companheirismo,  longe das disputas de ego, egoísmo, insegurança e outros senões que vemos nos dias de hoje nos relacionamentos.

Infelizmente o que vemos são pessoas que se casam com rivais, ou com paixões e estas quando acabam por esfriar, e se vê por baixo da película superficial dessa emoção o coração não encontra eco na alma do outro e assim o amor não é devidamente desenvolvido, desta forma a maioria da sociedade de hoje em dia, não se casa com companheiros e os ficam cerceando, impedindo o crescimento do cônjuge. Não é raro ver isso ocorrendo de ambos os lados, seja diminuindo e minando a autoconfiança daquele/a que deveria ser seu parceiro/a, como sabotando os planos do outro com frases irônicas ou depreciativas, ou o famoso “Isso é besteira” ou algo que o valha.

Percebo que no geral isso acontece quando uma das partes ( ou as duas)  não consegue êxito no próprio caminho criando assim uma dissidência onde deveria ser uma convergência ; Convergência sim, pois não é raro encontrar seu próprio brilho quando ajudamos a outrem, sobretudo se é alguém que amamos.

A grande parte dos casais de hoje não percebem que o entendimento do que é importante e caro ao outro, só aumenta o amor deste por ti, o tornar livre para seus caminhos e decisões e incentivar um ao outro, seja nos grandes ou nos pequenos planos, nos tornam cúmplices, companheiros de uma mesma jornada e caminho.

Em outra passagem vemos esta reflexão de Harold:

“Caoilin, é a mulher certa para mim, embora me pregue essas pequenas armadilhas – Harold sabia que Caoilin passará os últimos anos cuidando de um marido doente e alcólatra, então fazia pequenos estratagemas para saber que tipo de Homem ele era. – Ela é engenhosa e astuta, ninguém desconfiaria que por trás daqueles olhos expressivamente verdes e rosto plácido havia uma vontade férrea e sabe se  impor como ninguém. –  Harold antecipava o prazer de comentar com os amigos :” – Vejam!!!, Vejam o que minha esperta esposa fez e com isso melhorou nossa fazenda, ou que excelente negócio ela fez ao comerciar o gado.  – Sem dúvida – conjecturava ele – é uma Dama que se valoriza muito e quanto maior o valor que a mulher se dá, mais saborosa é a conquista e melhor a reputação do homem, Ela é orgulhosa e seu orgulho me honra. – Pensava Harold voltando de seu encontro com Caoilin”

– Seu orgulho me honra – tão diferente e distinto  de hoje onde os homens e mulheres simplesmente não conseguem suportar ou lidar com um parceiro de caráter forte, de decisões firmes, de tranquilo destemor ao desconhecido e a uma visão indômita da vida.

Tenho inúmeros amigos, homens e mulheres que tem a mesma reclamação, de assustar seus supostos parceiros, pretendentes e afins, a eles eu digo: – Nem por um momento pensem que o problema, se é que há algum – além de insegurança do outro, é de vocês, o problema ao meu ver está em como os relacionamentos são mantidos hoje em dia, pois são estabelecidos numa espécie de chantagem, chantagem sim da mais barata e emocional, coagindo um ao outro, alguns exemplos do que quero dizer:

– “ Se você for beber com suas amigas, vou no futebol” Ou “ – Se você vai sair com “aquelas” meninas do seu trabalho ( faculdade, club etc), vou sair com meus amigos.”

Este tipo de “acordo” está tão imiscuído em alguns de nós, que a pessoa sem saber, sem se perceber vai se anulando cada vez mais, até se tornar totalmente dependente do outro, ou ter um surto e terminar o relacionamento “do nada”, nunca se termina um relacionamento de uma hora para outra, podemos não nos aperceber do que ocorre no coração daquele que estamos e isso levar ao fim, e estas ocorrências nada incomuns só corroboram para minha teoria do quanto apartadas as pessoas estão de seus relacionamentos, do sentimento que ali deveria existir, para se centrar apenas em si próprios, tendo o outro como um mero troféu, uma posse,uma amostra para a sociedade que não ficou para trás, para titio ou titia, e assim inevitavelmente ocorre a traição e ao trair a pessoa com quem esta, se traí a si mesmo, pois  algo mais profundo permeia esse agir, pois em nossa sociedade não há mais confiança, não há mais honra na palavra dada, desaprendemos o valor do olho-no-olho, da confiabilidade e assim arrastamos para nossos relacionamentos esta mácula.

Engana-se quem acha que honra é um tributo ao outro, Honra é antes de tudo um privilégio e benefício seu, para você mesmo, a honra e palavra não se dá aos outros, se dá a si próprio, é o que te mantém integro, é o que te mantém fiel a você mesmo, e sendo fiel a si, se é fiel aos Deuses.

O entendimento celta do que é honra, dever e orgulho é tão diverso do que temos hoje, que só podemos lamentar ter perdido esse sentido de liberdade ao indivíduo, sem precisar tolher, sabendo que cada um pode e deve ter seu caminho próprio como ser individual, e que de forma alguma isso diminui o casal , ao contrário, tecendo para além da união de corpos o que deve ser também a união de almas, transforma o relacionamento, namoro, casamento em uma parceria e não Num cárcere.

Pois ao dar ao outro autonomia e segurança, é preciso ser e agir como pessoas maduras e bem resolvidas consigo mesmas, e esse caminho só acontece com a confiança, em si e no outro, desta forma o relacionamento finalmente amadurece e assim naturalmente segue para o companheirismo das grandes almas, e a parceria daqueles conhecidos aos celtas Irlandeses como Annan Cara.

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11° Semana para Brigid – Festivais, Dias Santos e Épocas Festivais.

Bom depois de quase um ano parada retorno minhas escritas e nada mais justo que retornar ao trabalho que deixei inacabado com minha Madrinha, e com a aproximação de Brigantia e a nova vida crescendo em mim, eu novamente me inspiro.

 

brigid

Na minha modesta opinião todos os dias, são dias de celebrar aos Deuses, pois toda manhã acordamos e toda noite deitamos pela vontade deles, assim de um forma ou de outra estamos sempre conectados ao divino, pois mesmo quando não nos lembramos deles, eles se lembram de nós, pelo menos gosto de pensar assim, mas todos nós gostamos de ter um dia dedicado apenas nosso e com os Deuses não seria diferente e assim estabelecemos as datas em que celebramos nossas Divindades.

Entre outros epítetos Brigid é conhecida como a senhora da Lactação das ovelhas, não por acaso um dos nomes de seu festival é Oimelc (literalmente lactação), a festa de Brighid é comemorada no hemisfério Sul dia 02 de Agosto e dia 02 de fevereiro no hemisfério Norte, junto com a celebração de Santa Brígida de Kildare.

Um fato curioso de se observar é que na Igreja católica, tanto a ocidental, como na Ortodoxa, o dia 02 de Fevereiro é também celebrado como a de Nossa senhora das Candeias ou a candelária, onde Maria purificada do parto (E Brigid é uma Deusa protetora dos Partos e Parturientes, como veremos) apresenta seu filho ao templo, isso nos mostra que mais que uma mera apropriação cristã de outra festividade pagã, nos mostra a força da Deidade primordial, que se nega a morrer, fazendo assim com que os cristãos usassem uma data já imposta a outra divindade, se transformando assim na nova forma de culto.

Dentro desta junção cristã e pagã, que permeia a figura de Brígid, destaca-se um fato interessante e rico sobre a comemoração do dia de Brígid ou Brigantia em Kildare:

É feita uma procissão, que saí da catedral de Santa Brígida até o poço sagrado e o carvalho, nesta procissão pela cidade cristãos e Pagãos (Druidas ou não, aparentemente o culto a Brígid ultrapassa essa coisa mundana de religião e apenas se foca na espiritualidade, cura e inspiração) andam juntos, ao final celebra-se uma missa e na sequencia uma cerimônia druídica.

O dia de Brighid ocorre entre o solstício de inverno e o equinócio de primavera, quando o calor do sol começa a voltar a terra, e em alguns lugares começa o desgelo, assim Brighid também é aquela que anuncia a primavera.

Outro momento em que a presença da Deusa é não apenas lembrada, como antigamente celebrada é no momento dos partos, sendo ela a Deusa protetora das gestantes, parturientes e recém-nascidos, e talvez por todos estes atributos da Deusa é que no catolicismo místico da Irlanda, aquela que se tornaria Santa Brígida é tida como a madrinha de Jesus.

Outra associação que pode ser feita, não digo celebrada, mas que pode se tornar um dia de Brigid é na morte de um ente querido – Pois – Quando seu filho Ruadán morre na segunda batalha de Moytura, ela entoa o primeiro:

” Caoineach – Uma tradição Irlandesa de luto pelo que se foi, este é feito sob lamentos com gritos e prantos violentos – Dizem que quanto mais pungente e intenso o lamento, se saberia o quão bem quisto era o falecido.” (Site Keltia Brasil – Wallace William)

A época da celebração de Brighid é uma época para se purificar, encontrar ou reencontrar aquilo que te move, que te inspira. E essa época não precisa ser apenas no dia consagrado a ela, ou nas ocasiões citadas, como disse no início TODO DIA é dia de cultuar, agradecer, se curar, se inspirar. Todo nascer do dia uma renovação, cada alvorada e crepúsculo uma nova oportunidade e novas batalhas, pois é através de nossas lutas,  que nós nos inspiramos e através da inspiração vem a cura.

Embora esteja um tanto  antecipado,  visto que ainda estamos no início de Janeiro, mas realmente não queria esperar até Fevereiro para voltar a escrever, então que todo dia seja dia de Brigid.

Maith Brigantia !!!!

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Garotas, meninas, mulheres maravilhosas.

Garotas, meninas, mulheres maravilhosas.

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É hora de se empoderar, não apenas no discurso, ou na replicação de textos sobre machismo, feminismo, feminazi.
Não é anulando ou odiando o másculo, o macho, o viril, é antes de tudo o assimilando para nosso ser.
O Empoderamento não vem por poções, mágia, mágica ou pílula miraculosa.
O Empoderamento é trazer nossa soberania a tona, é trazer nosso poder para nós.
Que importa, quem, o quê e qual situação X pessoa vai me julgar, ou analisar o que visto e o que falo.
A Soberania é ser autentico, é ser você é o se aceitar e se perdoar, não aquele perdão culposo do cristianismo, mas é o se aceitar, com seus pontos fortes, fracos, seu lado luz e seu lado trevas. A semente só nasce se houver luz, mas só se nutre na escuridão da terra para poder ganhar força e germinar.
Soberania não é fazer o que quiser e pronto. É fazer o que se precisa e quer fazer com a responsabilidade por seus atos e escolhas sem arrependimento.
É entender que mesmo nas escolhas erradas há lição e elas nos transformaram no que somos hoje.
Arrisque-se, viva, ouse sonhar e fazer aquilo que a sociedade dita como esquisito, absurdo ou bizarro.
Faça sua alma brilhar e se é fora do dito normal ora eles que se cocem.
A soberania começa conosco, como cuidamos de nós, mental, física e espiritualmente.
A Soberania traz o empoderamento e o empoderamento mantém em nós a Soberania.
Gritem, lutem, chorem, riam, sejam felizes, sejam vocês, pois ninguém além de nós, podemos ser nós.
Então que façamos valer a pena ser quem somos, Soberanas e Soberanos de nossa jornada chama vida.

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Senhora dos Cavalos, mãe soberana nossa, escutai-nos
Traz nossa visão,
Traz nosso saber oculto.
Traz aquele amor que matemos para o outro, por nós mesmas,
Grande rainha senhora das batalhas, senhora dos mil nomes
abençoa-nos com tua força e coragem
Traz a coragem para ver nos cantos escuros de nossa alma, a Soberania escondida,
Nos traumas que mais tememos.
Que nossa fraqueza seja nossa força.
Senhora das curas, amada mãe
traz a cura atraves de nosso empoderamento.
Traz nossa chama do ventre vosso
Acende nossa mente com sagrada inspiração.
Senhoras somos vossas, assim como vós são nossas.
Assim cada uma , uma  mãe, uma velha, uma irmã, uma esposa uma amante.
Ensina-nos a lidar com este poder.
De ser interiormente uma de vós.
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Outono

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O Outono sempre foi minha estação preferida, suas cores, matizes e cheiros, o lusco- fusco do crepúsculo, nesta época é  ainda mais belo pois ele fala de vida e a morte  que se fazem presente, pois é o observar do amadurecimento, dos finais de ciclo, do potencial escondido pronto a germinar. É uma estação de surpresas, dentro do fenecer encontramos a semente que irá germinar.

Sobre tudo o Outono fala de esperança

Pessoas, para vocês com carinho. Amigos, família, clã , tribo.

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Nesta paisagem interior da alma, a luz cruza o horizonte do coração, eclipsando nossas emoções.

Nossos olhos se voltam para as noites iguais da nossa mente, observando, silenciosamente, que uma metade da luz está acima do horizonte do coração, no mesmo momento que a outra metade está abaixo; aguardando por uma transformação interior.

Nossas colheitas dizem o que plantamos na estação anterior. Que o leite derramado seja sempre um ato de agradecimento na terra dessa jornada, onde a vida continua a nascer em cada dia e morrer em cada noite.

Os ventos levam as folhas secas dos nossos lamentos para o longe dos nossos olhos, em cada noite que esperamos pela volta de alguém que partiu, de um lugar que deixou, ou de um Deus que te visitou.

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Seguimos plantando nas margens das nossas esperanças, as sementes que tiramos dos frutos dos nossos pesares e alegrias. Amadurecemos no mesmo tempo que eles, diante da luz que nossa fé irradiou no equilíbrio das nossas certezas mais lúcidas.
Cada semente, para germinar, deixa-se morrer nas profundezas da terra, formando um novo grão de vida, pronto para novos ciclos da natureza.
Deixemos pois morrer em nós e em nossa vida  o que deverá resurgir mais forte e belo na próxima estação.

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10ª Semana para Brigid – Oferendas

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O tema de oferendas é algo que já tem um tempo que quero escrever, mas como no texto anterior, não focarei apenas em Brighid,embora darei um foco a ela ao final  deste, pois é um tema recorrente a todos  os Deuses, afinal ofertamos/sacrificamos (Do Latim : Sacrificium, ou literalmente: “ofício sagrado”) para demonstrar nossa gratidão, nossa fé aos Deuses e/ ou solicitar sua compaixão / ajuda / intervenção.

Assim de uma  forma pragmática e  prática  a qual  a maioria de nós esta acostumados, podemos  dividir os tipos de oferendas  em 3  grupos principais: sacrifícios,libações e votivas.

Os sacrifícios antigamente eram feitos com sangue e a imolação de algum animal – Hoje não há mais essa  e dentre o meio druídico ofertamos parte de nossa colheita, nossos frutos, sendo simbolizados por grãos, frutas, alimentos em geral, isso nos leva a outro tipo de oferenda, que antigamente  eram  conhecidas como as  primícias –  que justamente consistiam no ato ritual de oferecer a primeira parte de sua colheita aos Deuses, por exemplo – os primeiros cereais da estação, os primeiros frutos da colheita, a primeira comida do ritual, o primeiro vinho de uma garrafa, a primeira parte de uma refeição.

Hoje em dia não é diferente, embora não façamos a colheita das plantações, o fazemos de forma simbólica por nossas conquistas. Como podem observar tal como o sacrifício, as primícias reforçam a ligação através da partilha, mas como são os Deuses os primeiros a receber, reconhecemos a sua superioridade, e também que o que temos provém deles, agradecendo-lhes pelo que nos dão, hoje não há mais a distinção entre sacrifício e as primícias. Para Brighid em geral se oferta  grãos mas principalmente cevada, trigo ou seus derivados como bolões e pães, o mel e as flores também são oferendas comuns a Deusa.

Outro tipo de oferenda sacrificial, são os jejuns ou as guises – Onde o ofertante se abstem de algo – seja comida, seja o de cortar o cabelo , prática de um hábito, etc  – em honra ao Deus  de devoção,seja para agradecimento ou pedido.

As libações são as oferendas líquidas. Resumidamente as libações consistem no verter de um líquido que se oferece aos Deuses, normalmente feito na terra ou numa fogueira, seja com cerveja, vinho, hidromel – E no caso de Brighid leite, água são os mais comuns em libações.

Ofertas votivas, são as mais incomuns hoje em dia, são aquelas ofertas que não são de comida ou bebida, ou seja, que não se degradam, são ofertas de estátuas, vestidos, danças, templos, hinos, músicas, meditações, entre muitas outras. Normalmente as ofertas votivas eram feitas em agradecimento por algo, como a resposta a uma prece ou o afastar de algum mal, ou a vitória de uma guerra, podendo também fazer parte integral de alguns festivais.

E é justamente dentro das oferendas votivas que darei um foco maior e  entro no tema que eu realmente gostaria de escrever, pois há um último tipo de oferenda, e essa eu não sei como nomear , mas como coloquei acima a encaro como parte das votivas – Que  é a oferta de si mesmo, e dos seus dons aos Deuses –  E como seria isso? dedicando aos Deuses suas atitudes e atividades diárias,  tornando a sua vida um ritual constante, parece simples, mas é algo extremamente difícil enxergar o cotidiano como sacro.

Por exemplo porque não ofertar a Brighid uma cura que você realizou!  Sei que a maioria de nós não se dá conta das suas atitudes diárias e se perguntarão –  que cura fiz?  Garanto que em algum momento da sua vida, você já aliviou o pesar de algum amigo, parente, conhecido – Apenas o escutando, ou dando apoio numa hora difícil, contando uma piada ou simplesmente partilhando uma refeição, chá, cerveja

Outro exemplo, para aqueles que não gostam de seu trabalho, ou que enfrentam conflitos em suas vidas, porque não ofertar essas batalhas de seu dia-a-dia através de sua resolução e determinação em enfrentar o que quer que seja.

Até coisas mais simples como contar uma história ou fazer uma poesia, estou propositalmente citando exemplos que tenham a ver com uma das três faces de Brigid, mas existem muitos outros mais, que podemos associar aos Deuses em relação a nossa vida diária, que possamos agraciar a Mannannam pela boa travessia de seu trabalho a sua casa.

Passamos uma parte de nossas vidas dedicada aos Deuses, nós que estudamos os caminhos de reconexão com a Terra, os ditos caminhos pagãos – seja Druídico ou não, Significa deixar nossa vida andar, permanentemente na trilha dos Deuses, como um todo, reconhecendo a parcela divina, de cada um deles, dentro de nós – e isso significa deixar ser guiado, entregar sua vida –  como poucos o fazem –Aos Deuses.

É perceber que nossos rituais, sacrifícios e gueises são uma pequena parcela da derradeira oferenda que  somos nós.

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9ª Semana para Brighid – Concepções Errôneas

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Concepções errôneas, não sei se há alguma específica a Brighid, além daquela que assola todos os Deuses por nós humanos:

A ideia que os Deuses e Deusas tem um único aspecto.

Infelizmente é muito comum ver no meio pagão e exotérico rituais, encontros, workshops deste ou daquele Deus ou Deusa,  são inúmeros os ritos de amor com Afrodite, ou magia de runas com Odin e por aí vai.

O que se nega ou melhor o que a grande parte desconhece nessas vivencias é a totalidade de cada Deidade e  a gama de aspectos que cada uma traz.

Pego os exemplos já citados, é inegável que Afrodite é a Deusa do Amor e da Beleza dos gregos, mas já se perguntaram qual o tipo de amor que você irá atrair?

Afrodite nem de longe é conhecida por um temperamento dócil ou afável ao contrário ela é implacável com sua nora Pisique, praticamente destrói a vida de Pares – quando este escolhe outra Deusa como a mais bela, para receber a maça de ouro e deixa Marte aos seus pés, por ele ter negado a se deitar com ela.

Pegando por suas lendas e mitos vemos que Afrodite é : voluntariosa bela, possessiva,doce,obstinada,ciumenta,encantadora entre outros; Assim é preciso ter ciência que pedir-lhe um amor ou beleza, é lidar com todas as características acima e outras tantas.

Odin por outro lado é visto como o Pai dos Deuses, senhor das Runas e da magia       Porém ele é também o pai da forca, feliz com a guerra, trapaceiro,andarilho,sábio,xamã – Há quem o chame pelos seus epítetos germanos Wodan ou Votan que por mais que “seja” a mesma divindade tem aspectos diversos e da mesma forma é preciso saber com quem e com qual aspecto se está lidando.

Quando entramos em contato com as divindades, seja de qual panteão for, seja para fazer um rito rápido ou pedir auxilio,saiba quem está chamando, tente conhecer a totalidade daquela divindade afim de não desrespeitar e nem criar problemas para si.

É dito que são precisos 3 Rs para alcançar o Resultado.
Respeito
Reconhecimento
Responsabilidade
Só assim obtém Resultado.

Lembrei de um aspecto de Brighid  que normalmente é negligenciado e que citei no texto anterior que é a Forja, não apenas aquela que inspira os  heróis as batalhas, ou ou a que molda o ferro no fogo afim, Brighid  tem um aspecto de batalha, de guerreira – E  em algumas tribos era chamada de Briga e é a Deusa de vida e da morte, diz se que os Brigantes eram seu povo mais amado e tinham o nome de sua tribo em sua honra.

Mesmo a Brighid Irlandesa  tem parcelas deste aspecto, um exemplo é a lenda que se segue:
” Certa vez  uma mulher ficou viúva e não tinha mais filhos que pudessem vir em seu auxilio, suas terras estavam localizadas na parte oeste do Lifey e eram abundantes e férteis, alem de possuir um pequeno moinhos, a Viúva sofria com assédio de bandidos e homens de ambição, que apresentavam propostas de casamento ou compra de suas terras.
Um dia cansados das recusas da velha senhora, tramaram para mata-la, felizmente a boa senhora era amiga da boa gente e eles a aconselharam a chamar por Brighid para vir em seu socorro, assim faz a viúva e ao por do sol do dia em que os homens tramavam matar a senhora chega Brighid em sua forma trina brilhante, com o fogo saindo de suas cabeças, uma trajando as vestes de uma Druida,seu outro aspecto trajando as roupas de bardo  com uma harpa nas suas mãos e  a terceira Brighid vinha vestindo uma armadura, espada e escudo e foi ela quem bradou:
Homens ambiciosos e vis que a vergonha e desonra caía sob vocês ou vós sob minha lamina, eis minha sentença largaram suas vidas e jurarão servir a esta avó, cada um por nove anos a começar por este que tramou sua vida, escolham servir ou me enfrentar.

Prontamente os homens se dobraram sob seus joelhos adoraram Brighid e juraram servir a senhora pelo tempo determinado.

Pelo exemplo desta lenda e tudo que foi dito acima é se vê a importancia de não encarar os Deuses como entidades monofacetadas e sim tão ricos e diversificados neles próprios quanto qualquer um de nós.

Hail Brighid.

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Lugh e a demanda dos filhos de Turenn

Lugh esperava o retomo de seu pai. Como não voltasse, decidiu ir ao seu encalço. Ele passava pela Campina de Muirthemne. A terra, indignada, testemunha da morte de Kian, falou a Lugh e contou-lhe tudo. Ele exumou o pai, e confirmou a verdade. Constatou a violência praticada e chorou sobre seu corpo ultrajado e penalizado pela terrível morte. Imprecou contra os autores da morte de seu pai, assassinos impiedosos, sem lealdade nem honra, que de modo perverso e vil mataram quem estava só e indefeso. Chorou, lamentou e, nada mais a fazer, devolveu o corpo ao túmulo, levantou um pilar com seu nome escrito em ogam, e voltou para Tara.

Todo o povo de Danna estava reunido no palácio quando Lugh ali entrou. Os três filhos de Turenn também estavam presentes. Ele então tocou o sino dos chefes, com o qual os gaélicos pediam silêncio na assembléia, e então disse: Povo da tribo da deusa Danna, pergunto-lhes: que vingança mereceria quem tivesse matado vosso pai de forma vil e desonrosa, aviltando seu corpo e ultrajando seu valor de guerreiro?

Um grande aturdimento tomou conta da assembléia, e Nuada, o rei, disse: Certamente, não está nos dizendo que é seu pai que foi morto assim?

Foi. A terra onde ele foi sepultado revelou-me. Mataram Kian, meu pai, com pedras e paus. Seu corpo traz marcas de morte impiedosa. A pele ruiu, os músculos foram espedaçados e sua mortalha é uma massa de sangue coagulado. Vejo aqui nesta assembléia os autores de sua morte, e eles sabem melhor do que eu a maneira como o mataram.

Se alguém matasse meu pai desse modo, eu não me contentaria em tirar a vida do assassino de uma vez. Arrancaria todos os dias um membro de seu corpo para que ele sofresse uma morte lenta e agoniante, disse Nuada, e todos os demais concordaram, entre eles os filhos de Turenn.

Aqueles que mataram meu pai concordaram com essa sentença de morte! gritou Lugh. Tenho todos como testemunha. Eu, porém, declaro que meu desejo de vingança se arrefece mediante a punição que desejo lhes impor. Exijo, em vez de lhes dar morte igualmente vil, um pagamento de resgate aos três que cometeram esse ato indigno contra meu pai. Juro, não agirei contra o rei violando as leis nem a proteção real concedida a todos que estão em seu palácio, mas, se recusarem a minha proposta de resgate, não sairão daqui até que uma solução seja encontrada para esse caso.

Se fosse eu o assassino de seu pai, disse Nuada, eu me consideraria afortunado de me ver poupado de uma vingança terrível em troca do pagamento de um resgate.

Os filhos de Turenn se consultaram entre si: Lugh sabe que fomos nós que matamos seu pai. Muito mais conveniente será admitir nossa culpa, pois sua vingança será terrível se nos esquivarmos, concordaram entre si Iuchar e lucharba. Brian, porém, não queria confessar, temendo que Lugh retirasse o oferecimento de um resgate e pedisse sua morte. Mas seus irmãos o forçaram a confessar, e ele acabou dizendo: Ninguém ignora, é Lugh, o desafeto que se interpunha entre Kian, seus dois irmãos e nós. De nada adianta negar que o matamos, pois vejo que você está muito bem informado de tudo. Estamos prontos a pagar o resgate pedido.

Muito bem, disse Lugh, declaro perante esta assembléia o vosso resgate. Eis o pagamento que exijo: três maçãs, uma pele de porco, uma lança, dois cavalos e um carro, sete porcos, um cão caçador, um espeto de assar e três gritos numa colina. Se acharem muito, declarem sua objeção. Eu examinarei quais entre essas exigências posso retirar. Se estão de acordo, digam e jurem compromisso de cumprimento imparcial do resgate nesta mesma hora e partam em demanda dos objetos que pedi.

Parece insignificante, disse Brian, mas temo que sob exigência tão mínima se oculte uma vingança maior.

Não penso que seja pouco o que exijo, disse Lugh, e declaro perante esta assembléia que não procurarei outra vingança. Se lhes dei minha garantia, agora peço que façam o mesmo.

Não pode duvidar de nós. Não somos porventura a garantia de um resgate maior do que esse que exige? disseram os irmãos.

Guerreiros tão destemidos deviam conciliar atos de semelhante valia, disse Lugh. Não é o que tem demonstrado vossos atos. Não merece confiança quem agiu de modo tão desonroso. Ademais, conheço vossa fama. Tenho noticias de que, embora temíveis e corajosos guerreiros, já falharam muitas vezes em cumprir promessas feitas. Saibam que coragem e valentia não bastam para fazer o valor de um guerreiro. É preciso mais, juntar atos e pensamentos ajustados.

A declaração de Lugh perante a assembléia era constrangedora para os filhos de Turenn. Esforçaram-se para manter a cabeça erguida e aceitaram a exigência jurando, diante de Nuada, rei de Erin; Bove Derg, filho de Dagda, e de todos os nobres da tribo de Danna, que cumpririam o acordo.

Lugh levantou e disse: E então hora de declarar os pormenores do resgate que lhes exigi e que deverão ser rigorosamente cumpridos conforme as minhas determinações. As três maçãs são aquelas que frutificam no Jardim das Hespérides, situado no Leste. Não há outras que se comparem. São únicas em beleza e magia. Além da cor de ouro e sabor de mel, possuem a propriedade da cura imediata de todo tipo de mal que aflige o homem. Uma só mordida basta para fazer retroceder o mal. O guerreiro ferido em batalha ou o homem afligido por doenças fatais veem sua saúde e vigor voltarem instantaneamente. Uma vez mordida, recompõe-se e ressurge inteira, renovada em todo o seu esplendor. O guerreiro que a possuir poderá levar avante qualquer façanha. Embora destemidos guerreiros, vocês terão grandes dificuldades nessa empesa. Uma profecia amplamente conhecida revelou que três guerreiros do Oeste entrariam no Jardim das Hespérides para conquistar as maçãs à força. O rei preveniu-se e escolheu guardas temíveis para vigia-las noite e dia, e há muito estão preparados para recebê-los.

A pele de porco é outra peça mágica de grande valor. Está na posse do rei Tuis da Grécia. Esse porco, ainda vivo, tinha a propriedade de transformar em vinho a água do rio ou fonte onde passasse. Durante nove dias durava essa magia, e o ferido ou doente que bebesse desse vinho, mesmo às portas da morte, ficava inteiramente curado. As propriedades mágicas do porco estavam em sua pele, foi o que faiaram os magos. O rei mandou matá-lo e guardar a pele encantada. Previnam-se. Terão muita dificuldade para consegui-la.

Outro objeto mágico que não será fácil obter é a famosa lança envenenada de Pezar, rei da Pérsia. Tem o nome de Furiosa. O guerreiro que a possuir, pode executar façanhas impensáveis no campo de batalha. Em tempos de paz, é preciso deixar sua ponta mergulhada em água para que sossegue sua fúria matadora.

Os dois cavalos e o carro estão em Sigar, na Sicília. Pertencem ao rei Dobar. Também serão imensas as dificuldades para obtê-los. Não há carro mais belo; os dois cavalos trotam tanto em terra como no mar. São incomparáveis em leveza, velocidade e força.

Os sete porcos pertencem a Asal, rei dos Pilares Dourados. Possuem a propriedade de manter a saúde. Quem deles se alimenta jamais fica doente. Mortos num dia, ressurgem no outro inteiros e completos.

O cão caçador está em Iroda. Seu nome é Fetinis. Brilha como o sol. Todos os animais caem instantaneamente em sua presença desfeitos de qualquer poder sobre ele.

O espeto de assar esta na ilha de Fincara. Pertence às mulheres guerreiras que ali habitam. São em número de 150 e o guerreiro que se aproximar não tem salvação. Uma só deias enfrenta três de uma vez em combate corpo-a-corpo e são imbatíveis.

O último ato do seu resgate será dar três gritos na colina de Midkena, ao norte de Lochiann. Midkena e seus filhos iniciaram meu pai na arte das armas e o amam ardorosamente. Mesmo que esse resgate a mim devido os livre de minha vingança, vocês não escaparão da sua. Além do mais, sua geasa não os permite deixar que alguém grite no topo de sua colina.

Eis tudo que deverão cumprir para resgate da morte que deram a Kian, meu pai, concluiu Lugh.

Brian, Iuchar e lucharba, flihos de Turenn, escutaram em silêncio. Sua perturbação aumentava à medida que Lugh ia relatando os pormenores da demanda que teriam de empreender. Agora, terminada a longa lista de Lugh, não opuseram palavra alguma, abandonaram em silêncio o salão e rumaram para a casa de seu pai.

O pai escutou-os contar sobre a dura demanda que tinham de cumprir e quedou-se em prolongado silêncio. Seu rosto cobriu-se de sombras, todo ele mergulhado em profundos pensamentos, e quando saiu de sua introspecção veio dizendo: Meus filhos, terríveis noticias são essas que me trazem. Temo e choro o seu destino. Penso que encontrarão a morte nessa demanda. Entretanto, foi um ato vil matar Kian do modo como fizeram, e a pena que lhes foi imposta é justa. Acontece que o Ildana exige de vocês uma façanha de proporções extraordinárias. O que ele lhes impôs só pode ser obtido pelo próprio Lugh ou por Manannan Mac Lir. Voltem à Lugh e peçam-lhe para ceder o cavalo de Manannan que está em sua posse, o das Crinas Brilhantes. Ele não recusará se, como penso, deseja que sejam bem-sucedidos. Caso recuse, peçam o barco de Manannan, o Varredor de Ondas, mais útil do que o cavalo. Como sabem, não pode recusar um segundo pedido.

Fizeram como o pai aconselhou. Foram a Lugh e disseram: A demanda que nos exigiu é tarefa que somente com a ajuda do cavalo de Manannan será possível ser cumprida. Viemos lhe pedir que nos ceda o cavalo mágico.

Esse cavalo não é meu e não posso emprestar o que não me pertence, disse Lugh.

Então nos ceda o barco de Manannan, o Varredor de Ondas.

Não posso negar esse segundo pedido. Está em Brug-na-Boyne. Deverão buscá-lo. Mas devem saber que ele lhes parecerá muito pequeno para dois homens. Não se perturbem nem façam comentários a respeito de sua pequenez. Entrem em silêncio e pronunciem apenas: O tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena-te que navegue e nos leve para… E digam o nome do lugar aonde querem ir, mais nada. Acautelem a língua e não digam palavras vãs.

De volta para casa, contaram ao pai que tinham obtido o Varredor de Ondas: Ah, meus filhos, apesar desse valioso barco, essa demanda é penosa e difícil. Lugh ambiciona esses objetos mágicos para enfrentar a batalha de Moytura, e por isso cedeu o barco. Mas essa ajuda de nada valerá na busca do espeto de assar ou para os três gritos na colina de Midkena. Ah, meus filhos, são esses dois feitos que mais temo. Sinto que perderão a vida nesses dois últimos.

Os três irmãos partiram com sua irmã Ethnea para Brug-na-Boyne. Turenn ficou só, lamentando a sorte de seus filhos, pressentindo que não retomariam vivos da demanda.

Encontraram o barco na margem do rio. Seguiram as instruções de Lugh e pronunciaram brevemente: ó tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena que navegue e nos leve para o Jardim das Hespérides!

O barco moveu-se tomando rumo e disparou mar afora, por caminho breve, deslizando com ritmo e harmonia sobre as ondas. Ia macio, nenhum balanço, nenhum abalo, senhor das águas, imperador dos mares, corria veloz sobre o imenso dorso do oceano acalmando águas turbulentas. Não demorou quase nada, o barco os entregou ao seu destino. Desembarcaram, e ali ficou o Varredor das Ondas quieto, esperando para os levar de volta.

Temos uma jornada muito perigosa pela frente, disse Brian. Temos de estudar entre nós o melhor modo de obter o que viemos buscar.

Temos de enfrentar os perigos lutando, disseram seus irmãos. Estamos condenados a esse embate, que a essa aventura fomos compelidos pelo ato que praticamos. Para que deter nossos passos? Ou trazemos essas maçãs ou morremos. Não há mais que essas duas consequências nessa aventura.

Não, não, disse Brian. Não é assim. Devemos usar a prudência. A valentia não é inimiga da cautela. Estamos diante de uma aventura extraordinária que deve ser conduzida de maneira que nosso valor atravesse os tempos e nossa fama fique inscrita na memoria das gerações que se sucedem. Se temos de morrer, que seja de forma honrosa, e que nosso nome fique gravado com letras de valor e proclamado por toda gente, entre nosso povo e além. De outro modo, daremos oportunidade para que reprochem nosso caráter e conduta com a pecha de insensatos e tolos. Seremos bem-sucedidos se utilizarmos nossos dons mágicos em nosso favor. Vamos transmutar nossa forma humana em falcões. Com a destreza de nosso vôo e garras poderosas, poderemos escapar das flechas e lanças dos guardas e trazer as maçãs.

De fato, era um pensamento correto, concordaram todos. Brian brandiu então sua vara mágica e transformou a si e seus irmãos em belos e imbatíveis falcões. Rumaram para o jardim e sobrevoaram numa altura compatível para a investida. Mergulharam em parafuso com a velocidade vertiginosa dos falcões, desviando habilmente da profusão de flechas lançadas pelos guardas. Alcançaram as árvores com tal precisão e velocidade, que o intervalo de tempo entre a colheita das maçãs e o vôo de fuga foi tão imperceptível!, que uma ação e outra pareceram simultâneas. Em poucos minutos iam alto no céu e já nenhum perigo podia ameaçá-los.

Mas ainda não estava encerrada a aventura dos irmãos. Chegou aos ouvidos do rei a noticia de que três falcões tinham roubado as maçãs mágicas. Era preciso remediar a situação. Suas três filhas, poderosas magas, tomaram a forma de três grifos e foram no encalço dos falcões. A perseguição foi feroz, mas os falcões, usando a habilidade de seu vôo, avançaram mantendo cada vez maior distância. Os grifos, vendo que perdiam a perseguição, usaram de um último recurso: lançaram espessas rajadas de fogo sobre as aves. Foram atingidas gravemente, provocando queimaduras e cegueira.

Ah, morreremos! – disseram Iuchar e Iucharba. Ficaram em estado lastimável. Estavam certos de que não sobreviveriam. Brian tomou sua vara mágica e transformou a si e aos irmãos em cisnes e desceram no mar, desaparecendo da vista dos grifos. E assim puderam rumar seguros para o barco, Varredor das Ondas, com a primeira demanda cumprida.

Ó tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena que navegue e nos leve a Tuis, rei da Grécia, disse Brian, e o barco partiu cortando ondas, veloz como o vento, sutil como a pluma, leve como um pássaro planando no ar. E em breve alcançou o destino.

Não seria como bravos e temíveis guerreiros que se apresentariam ao rei. Os poetas na Grécia usufruíam de grande reputação e eram cultuados como deuses. Entenderam-se mutuamente que se anunciariam como poetas de Erin. Assim resolvidos, seguiram para o palácio e pediram uma entrevista com o rei: Somos poetas de Erin e desejamos oferecer ao rei os versos que compomos para ele, disseram. A guarda os foi anunciar. O rei estava no salão onde, reunido com seus nobres, regia um grande banquete. O momento, todo de Ócio e diversão, não poderia ser mais propício para a apresentação de bardas. O rei, envaidecido com a honra, disse: Que poetas são esses, que só de ouvirem falar de meu nome percorrem longas distâncias para cantarem em meu louvor? Traga-os, quero ouvi-los e fruir seus versos.

Os três irmãos foram conduzidos ao salão. Curvaram-se ate o chão em homenagem ao rei. Regozijas e grandes louvores e mais delicadezas para os bardos que chegavam: Juntem-se ao nosso banquete, bem-vindos, bem-vindos sejam, poetas de Erin! Dizei-nos vossos nomes. Brian, fazendo reverências, falou: Aqui viemos, grande rei, cantar a vossa gloria. Sou Brian, filho de Turenn, e esse é Iuchar; esse, Incharba, meus irmãos.

A presença de poetas vindos de terras tão distantes é uma felicidade para nós. Sentem-se à mesa e bebam as nossas felicitações e a nossa alegria!

O banquete era suntuoso, a mesa rica e próspera, as bebidas finas e aromáticas. Beberam, comeram e se divertiram partilhando do vinho da amizade entre os convivas e o rei. Depois de saciados, o ambiente impregnado de aromas alcoólicos, a alegria era geral, a satisfação e o prazer dominavam. Os poetas do rei, como era habitual, cantaram seus poemas aos presentes. O silêncio caiu sobre todos, que de olhos iluminados e embevecidos, fruíram os versos encantadores dos poetas da Grécia, sem igual no mundo.

Era preciso então que os poetas de Erin cantassem o poema que vieram trazer ao rei: Viemos aqui como poetas, é essa arte que agora devemos praticar, irmãos, disse Brian, e começou a cantar:

Cantamos tua fama, Ó Tuis.

Entre os reis, és o carvalho majestoso.

A pele de um porco como prêmio

de vossa generosidade a recompensa pretendemos.

Uma hoste tremenda e o mar bravio

E um poder perigoso a que não se pode opor:

A pele de um porco como prêmio

de vossa generosidade a recompensa

pretendemos.

É um bom poema, disse o rei; não fosse a dificuldade de entender seu sentido, maior prazer me daria.

Eu explico, disse Brian. Nós o louvamos como um carvalho acima dos reis. O carvalho excede em excelência todas as demais árvores. Assim vossa majestade excede todos os demais reis em generosidade e nobreza. “A pele de um porco como prémio” alude àquela que vossa majestade tem em seu poder, ó Tuis, e eu quero obtê-la como prémio por minha poesia. “Uma hoste tremenda, o mar bravio, a que não se pode opor”, ó rei, significa que não costumamos partir sem o objeto que nosso coração deseja.

Apreciaria mais seu poema se ele não mencionasse a minha pele de porco. Não foi um verso sábio este, ó poeta de Erin! Entretanto, não me furtarei a dar-lhe a recompensa como prêmio que lhe é devido. Em lugar da pele, que de modo algum darei, farei medir três quantidades de ouro na pele que os senhores ambicionam, uma para cada um.

Que sobre vossa majestade se derramem todos os bens, ó rei! É uma nobre recompensa, disse Brian. Mas sou amante da precisão, tenho uma natureza apreciadora da medida justa, e lhe peço que me deixe assistir à medição.

Nada oponho ao teu desejo, concordou o rei, e os filhos de Turenn acompanharam os servidores ao salão do tesouro. Veio a pele para as mãos do tesoureiro, e antes que pudesse preparar-se para a medição, Brian o assaltou, derrubou-o ao chão e apossou-se da pele. Os três irmãos correram dali para a sala do banquete com a espada em punho. Os nobres ergueram-se de um salto, tomaram suas armas e a luta começou. Foi uma sangria. Os filhos de Turenn abateram a uns; outros abalaram em fuga. Afinal, o rei e Brian se enfrentaram em combate singular. Lutaram ambos com grande bravura e feroz empenho. Quem sairia vencedor, é o que no calor da refrega não se podia prever. Brian desviava-se dos golpes do rei com incrível destreza; assim como o rei, e a batalha fervia entre dois adversários iguais em valor e pericia nas armas. No meio do redemoinho de saltos e golpes, Brian desabou ao chão pesadamente. Já o rei vinha dar o golpe fatal avançando com fúria, ele rolou sobre a próprio corpo, ergueu-se e se desviou com uma rapidez calculada. O rei, surpreendido, não teve tempo de deter seu avanço e foi chocar-se violentamente contra outro alvo, a coluna logo atrás. Brian, girando os calcanhares, avançou contra o rei e enterrou a espada em seu peito. Terminada a refrega, correu com os irmãos para a orla onde o barco mágico os esperava. Pronunciou incompletamente a formula: ó tu, barco precioso de Manannan, Lugh ordena que navegue e nos leve…

O barco não se moveu. luchar gritou: Brian, para onde temos de ir agora? O barco precisa saber.

Na confusão da fuga, Brian tinha esquecido o próximo destino. Naquele momento, era-lhe difícil reunir as idéias. Tinha de tomar uma decisão rápida, e a que melhor pôde conceber é partir para uma ilha próxima, porto provisório, onde primeiro pudesse se restabelecer das feridas na luta com o rei: ó tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena que navegue e nos leve para a ilha de Samos. O barco deu partida, conduzindo-os suavemente pelo mar. Aportaram na ilha e Brian fez uso da pele mágica para restabelecer-se. Tomou o vinho obtico com a pele e imediatamente estava cheio de vigor, nem cicatrizes restaram, de novo pronto para a próxima demanda.

Refeito, deliberaram sobre o próximo destino. A posse daqueles dois tesouros mágicos lhes favoreciam vencer as tarefas que lhes restavam. Definiram o rumo seguinte. Agora era a lança de Pezar, rei da Pérsia, que tinham de demandar. Convinha-lhes dissimular novamente a esse rei persa a condição de poetas. Aos reis os poetas são sempre bem-vindos e por eles são amados. Não há rei que não queira um poeta ao pé de si. A capacidade de tornar as palavras belas atrai os reis e principalmente os cantos pródigos de louvores inesquecíveis que lhes são dedicados. Um rei se faz imortal na pena de um poeta, e o valor que lhe é atribuído percorre o tempo, e assim se faz eterno, imortal. Com efeito, a poesia era o que tornava os reis amados do povo. Os reis amigos não viviam sem poetas.

Ó tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena que navegue e nos leve a Pezar, rei da Pérsia! O barco se arrumou para tomar o rumo indicado e voou sobre as águas, seu caminho liquido, via mutante e instável. Domou as ondas, domou perigos, domou redemoinhos, e lá apartou suave e brando levando os filhos de Turenn à sua nova aventura épica. Prenderam o cabelo com fita, marca dos poetas, e desembarcaram na aria. Atravessaram as muralhas e foram à parto do palácio pedir audiência com a rei: Trazemos nossos cantares poéticos ao rei, soberano da Pérsia!

Foram recebidos. Chegaram em momento oportuno, no fim do dia, quando os reis sentam-se à mesa com seus nobres para festejar, comer, beber e alegrar-se; quando em ambientes suntuosos e fartos eles se divertem com cantores e bailarinas. Embriagantes cantos, danças eróticas e sensuais arrebatam corações, corpos e mentes, e os homens sentem-se no paraíso.

Chegaram ali no calor da festa, e entraram cantando versos para maior impressão causar nos convivas.

Não haja pesares ao nosso rei Pezar

nunca as aflições lhe definham o ato

As horas lhe guardem o melhor azar

Viva sempre amado e cultuado!

Sejam bem-vindos, poetas de Erin, possa esta noite ser de encanto e que nossa hospitalidade lhes traga alegria e prazer. Juntem-se a nós e partilhem de nossa alegria.

Comeram, beberam e se alegraram. Saciados, chegou a hora da dança, poesia e música. Um grupo de bailarinas dançou, e sua dança arrebatou todos os corações e incendiou seus corpos no fogo do entusiasmo e dos encantas mágicos da arte. Os poetas da corte cantaram seus versos, e comoveram a audiência, queda em silêncio e possuídas da alma sagrada da poesia.

Foi nesse momento que Brian levantou-se, poeta visitante vindo de longes terras para louvar o rei Pezar, e ele cantou:

Lança não há mais valorosa que a de Pezar

A batalha dos inimigos frustra letal

Nenhuma derrota pode lezar

Esse rei que vence todo o mal.

De teixo feita, nobre madeira, nunca ociosa

Sua esplêndida seta avança fatal

aclamada unânime a Furiosa

A morte certa vem afinal

Seu poema é eloquente, ó poeta, mas o senhor louva minha lança, e me escapa a compreensão desse louvor, disse o rei.

Meu senhor, soberano da Pérsia, grande rei, pretendo como prêmio por meu poema conhecer essa lança tão fabulosa, disse Brian.

É uma arma que está guardada cuidadosamente. Devem saber que sua fúria é mortal e para apaziguá-la é necessária mergulhar sua seta em água. Eu o acompanharei à sala das armas, mas saiba que é a sua condição sagrada de poeta que o faz merecer de mim tamanha concessão.

Ó grande rei, levarei comigo a imagem de sua generosidade e cantarei em toda Erin sua nobreza e valor, disse Brian. Essas palavras encantaram o rei. Sua fama correria o mundo nos versos do poeta. A imagem de sua glória atravessaria o mar e perduraria no tempo, conhecido e louvado além da Pérsia.

Contente, o rei acompanhou os irmãos para a sala de armas. Ali, Brian contou novos louvores ao monarca pela beleza e brilho de seu incrível poderia bélico: Não é nada isso tudo diante do que verá, a lança mortífera, mais poderosa que milhares de armas juntas, replicou o rei. E, cada vez mais entusiasmado, conduziu Brian para conhecer a poderosa lança. Ela estava num tanque especialmente preparado para guardá-la. A água corria constante, entrando por uma abertura e saindo por outra, renovando-se continuamente. Era espantosa, a água ao redor da lança fervia, efeito de sua fúria e ânsia de atuar em batalha.

Brian, como um felino que sorrateiramente espreita sua presa, mediu o momento oportuno para assaltar de surpresa o rei e furtar-lhe a lança. Era preciso muita destreza. Uma vez erguida da água, a sua fúria devastaria tudo ao redor: Espantoso! – exclamou Brian, o poder dessa lança é extraordinário. Gastaria de vê-la atuar…

O rei não teve tempo para replica. Brian com um movimento rápido apoderou-se da lança, e partiu em disparada. Os irmãos a seguiram logo atrás. O rei acorreu convocando guardas para a defesa. A lança nessa altura, furiosa, retorcia-se incontrolável. Um grupa de dez guardas vinha em socorro do rei. Brian, com um domínio espetacular da lança, matou todos de uma só vez; outro grupo caiu na sequencia, e depois mais outro. O rei, desesperado, quedou-se inerte. Não havia o que fazer. A lança obedecia a quem a tivesse nas mãos. Ele chorou imprecando contra si mesmo: ó, infeliz! Por que foi acreditar nesse embusteiro e grande dissimulador? Infeliz, infeliz, infeliz, repetia inconsolável, e dava tapas no próprio rosto: Perdi minha maior preciosidade! Jamais sofri derrota tão arrasadora! – queixou-se e, fraquejado de forças, deixou-se ficar esparramada pelo chão, e fazia uma figura miserável ali em posição tão desleixada para um rei.

Brian e seus irmãos atravessaram a porta do palácio matando todos que encontravam, alcançaram as muralhas e rumaram para a orla. A lança dava rabanadas investindo contra pedras, árvores e tudo que ladeasse o caminho: Calma, acalme-se, Furiosa, acalme-se, dizia Brian tentando controlar a sanha mortífera da terrível arma. Os irmãos vinham atrás à uma distância segura: o seu nome é “Furiosa“, diziam, e davam pinotes. Calem-se! – pediu Brian; ela pode voar de minhas mãos e matá-los!

Chegaram enfim ao Varredor das Ondas. O barco, ao ver a arma assassina retorcendo-se em torno do próprio eixo, remexeu-se todo em aflição. Brian antes de entrar na embarcação, mergulhou a lança na água e esfriou sua fúria. Manteve-a sempre sob a água. O barco aquietou-se. Embarcaram e Brian, o guia de todos, pronunciou: Ó tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena que navegue e nos leve ao reino de Sigar e ao rei Dobar. O barco fez seu rumo e disparou suave pelo mar de azul cobalto.

Iam agora em demanda do precioso carro e cavalos do rei de Sigar. Seguiram firmes e orgulhosos de sua inteligência e façanha, mas guardando sua língua de pronunciar palavras vãs. A um sinal de palavras insensatas dos irmãos, Brian dizia: Calem-se! E para Brian era doloroso vigiar e ser o condutor de tudo na demanda. Mas ele sabia que seus irmãos eram só grandes guerreiros, não tinham a arte do pensamento correto. E esse é o traço mais perigoso e devastador nos deuses e nos homens, aprendeu Brian desde que matara Kian com injusto e traiçoeiro ato, tanto quanto insensato, e agora carregava o fardo das consequências e pagava suas penas.

Ainda sim, conquistaria para si o resgate de sua pessoa, é o que doravante almejava nessa demanda, e nada mais desejava, já que a morte que dera a Kian regia agora a sua vida, e toda ela transformara-se num circulo que orbitava unicamente em torno desse ato, acabado e finalizado, impossível de remediar.

Brian agora ocupava seus pensamentos em achar a forma adequada para se apresentar na corte de Sigar: Creio, irmãos, que é mais conveniente nos apresentar ao rei como soldados de Erin, disse.

Preferia que dessa vez chegássemos em nossa forma de guerreiros terríveis, hostis e valentes, que vieram buscar os cavalos e o carro de Sigar e que o levarão ou pela amizade ou pela força.

Não faremos isso absolutamente! – reprovou Brian. Ouçam minha proposta. Nos apresentaremos como cavaleiros de Erin que ali vieram dispostos a proteger e guardar quem melhor nos recompense. Penso que ganharemos a preferência do rei. Conquistaremos a sua confiança e isso nos facilitará o acesso aos bens que viemos buscar. Nosso sucesso nessa demanda será uma consequência natural.

Iucharba e Iuchar concordaram. Afinal, o irmão já tinha provado três vezes que seus planos eram bem-sucedidos, e muito melhor era seguir-lhe o parecer do que arriscar a morte numa aventura perigosa.

Chegaram à orla e desembarcaram, agora portadores dos bens mágicos que já tinham conquistado. Brian, com toda cautela, antes de rumar para o palácio, deixou os irmãos no barco e seguiu para a cidade a fim de encontrar um saco de couro bem vedado. Era sua intenção guardar a lança Furiosa num saco cheio de água, tanto tempo quando fosse possível, até que se instalassem.

Ia pelo caminho perquirindo sobre o objeto que procurava aos raros passantes com quem cruzava: Nesta terra não existe o objeto que procura, diziam. Viu que era inútil prosseguir a busca e não havia o que fazer senão aquietar-se e pensar em soluções. Sentou-se no caminho para pensar num modo de apaziguar a Furiosa: É uma situação difícil, dizia em seus pensamentos. De que meio posso me servir para levar comigo a Furiosa? Segundo pensa Pezar, somente a água pode apaziguar a sua fúria. Mas será somente isso? Estou certo de que há outro meio. De que modo descobrir senão testando? Trago comigo objetos mágicos que podem apaziguá-la: ou o vinho obtido com a pele do porco ou as maçãs poderão curar-lhe a fúria. Não sei que efeito fará a maçã. É muito arriscado usa-la. Conforme conclusão natural do poder de suas virtudes, a cura que as maçãs propiciam é permanente, e não me convém esse efeito para uma lança como Furiosa. Já o vinho deixa de ser vinho em nove dias. Isso me faz pensar que, se tem a virtude de uma cura permanente em seres vivos, um objeto de metal pode reagir de outro modo. Seja como for, é um risco que tenho de enfrentar. Ou devo entrar no palácio com ela em punho exigindo a entrega dos cavalos e do carro? Não, o rei preferirá a morte a me entregar esse bem precioso. Melhor é seguir o primeiro plano.

Com essas conclusões em mente, voltou para o barco decidido a fazer uso da pele. Tomou o objeto mágico, colheu água de um regato que corria nas proximidades e a transformou em vinho com os poderes mágicos da pele. Tirou Furiosa da água. A arma retorceu-se golpeando à direita e à esquerda: Calma, calma, Furiosa, não é hora de matar! – disse, e banhava a ponta da lança no vinho enquanto, a modo de conselho, recitava essa prédica. De fato, a arma foi arrefecendo, arrefecendo, até que se quedou adormecido o seu metal feroz.

Contente e audaz, sentindo todas as suas forças trabalhando em seu favor, convocou os irmãos para iniciarem sua jornada rumo à quarta aventura da demanda. Em breve alcançaram as portas do palácio e pediram que fossem anunciados ao rei Dobar como soldados de Erin que vinham oferecer sua valentia e bravura ao seu reino.

O rei estava ausente do palácio. Era seu costume presidir, em dias favoráveis, a sua assembléia de cortesãos em uma extensa clareira perto de seu palácio. Para lá seguiram os irmãos. Os três surgiram na orla da clareira e produziram impressão. Notados de imediato, abriram caminho para oferecer-lhes passagem e os nobres da corte de Dobar admiraram seu porte de guerreiros potentes, de andar firme, corajoso e valente.

Diante do rei, curvaram-se em reverência: Senhor, somos cavaleiros de Erin e viemos a esta corte oferecer nossa coragem e valentia ao vosso reino.

O rei admirou o oferecimento: Senhores, desejam fazer parte de minha corte como guardas defensores de meu reino?

Sim, desejavam. Tinham ouvido falar do rei Dobar e admiravam sua fama e seus tesouros preciosos. Serviriam com lealdade o rei em tudo, e para isso dariam a vida. O rei lhes ofereceu lugar de honra e confiança, fazendo-os seus guardas pessoais. A recompensa de seus préstimos poderia ser pedida na ocasião que lhes aprouvesse e seria equivalente à magnitude dos serviços prestados. E assim concordes, selaram compromisso.

Ficaram no palácio, com aposento reservado à guarda pessoal do rei. Pelo anoitecer, recolheram-se ao seu ambiente privado. Brian manteve Furiosa consigo e dela não se separou: Segundo suponho, a lança acordara daqui há nove dias, mas não tenho certeza de que será exatamente assim. Preciso vigiar. A arma mais potente e a coragem mais audaciosa não valem nada diante da imprudência, disse consigo.

E foi auspiciosa sua conduta. A lança removeu-se na alta noite, retorceu-se, e num salto desvencilhou-se de sua mão indo golpear a parede em frente. Brian apressou-se em agarra-la e dominá-la. Tomou a pele de porco, despejou do vaso a água deixada para a noite e a manhã, e passou a pele de carneiro por ela. Banhou a ponta da Furiosa no vinho. Ela se aquietou novamente adormecida: Esse acontecimento é extraordinário, disse consigo. Segundo penso, o seu ferro reage ao vinho mágico por nove horas. Amanha bem cedo preciso banhá-la novamente. E foi o que fez logo que saiu da cama.

O dia começava, era preciso investigar onde estavam o carro e os cavalos, agarra-los e sair dali quanto antes. Como guarda pessoal do rei, os três tinham de acompanhá-lo aonde fosse, e Brian previu que essa condição logo lhes propiciaria estar de frente com seu destino. Mas isso não sucedeu, e, passado um mês, Brian foi à presença do rei a fim de cobrar a recompensa dos serviços prestados:

Senhor, há já um mês estamos aqui, e venho pedir-lhe a recompensa de nossos serviços, disse Brian. O rei perguntou-lhe que recompensa desejava pedir, dissesse e ele julgaria a justiça do prêmio.

Senhor, começou Brian, ouvimos dizer que vossa majestade possui um tesouro de valor inestimável. Refiro-me ao carro e cavalos, que, segundo dizem, andam tanto na terra como no mar. Como recompensa deste mês de serviços, desejo que me mostre esse tesouro atuando em sua maravilhosa corrida por mar e terra. O rei replicou dizendo: Julgo insignificante a recompensa que me pede. Meus cavalos não saem do estábulo sem que haja razão para isso. Mas, pela estima e valor que seus serviços merecem, mandarei trazê-los amanhã cedo e percorrerei com eles uma porção em terra e no mar, conforme seu desejo.

Foi oportuna a disposição do rei. Furiosa não veria banho de vinho na manha seguinte.

E tudo sucedeu conforme as expectativas. Logo cedo, os cava-los vieram atrelados ao carro. O rei, que não permitia a ninguém subir no carro e guiar a marcha, e que os conduziu. Voaram como o vento pelo mar e pela terra, feito pássaros que voam soltos no vazio do céu, desvencilhados de todo obstáculo e força material. Era uma maravilha!

De volta ao palácio, o rei entregou ao palafreneiro o seu tesouro para o conduzir de volta aos estábulos. Brian, preparado para o momento, assaltou o palafreneiro e tomou dele o carro e os cavalos, os irmãos o seguiram e os três subiram para o carro. Os guardas empunharam as espadas para lutar. O primeiro grupo que tentou se aproximar caiu por terra, todos mortos pela lança Furiosa, e menos de minuto depois já os três irmãos voavam rumo à orla.

O rei viu que não adiantava persegui-los. A velocidade em que iam não era páreo para cavalos comuns. Terrivelmente arrasado com a perda de um bem tão precioso, rumou para o seu palácio. Os irmãos a essa altura, já estavam na orla e decidiram quem ia conduzir o carro e os cavalos conquistados: Não convém que nos apartemos. Levaremos os cavalos e o carro no barco conosco, disse. Não vê que não cabe? – interpôs Iucharba. Irmão, esqueceu que o barco pode levar quantos nele entrar? – voltou Brian. Vamos, disse, e embarcou os novos passageiros. E, à medida que iam um a um entrando, o barco se alargava para os receber: ó tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena que navegue e nos leve para o reino de Asal, rei dos Pilares Dourados.

Partiram no barco maravilhoso pelo vasto mar, rumo ao reino de Asal. Levavam consigo as maçãs douradas, que curam os homens de todo mal e doença; a pele de porco, que transforma a água em vinho terapêutico; a lança Furiosa, que mata infalivelmente; os dois cavalos e o carro, que andam tanto em terra como no mar. E agora navegavam rumo à quinta demanda, iam conquistar os sete porcos mágicos, preciosidades que dão saúde eterna e imortalidade a quem deles se alimenta, eles próprios animais imortais, que, mortos num dia, no outro revivem.

Em pouco tempo se aproximaram da costa e viram que estava guardada por soldados armados. O rei Asal teve noticias dos três irmãos e de sua façanha conquistadora de tesouros preciosos; soube que corriam os mares e tinham grande destreza, eram hábeis, infalíveis, astutos e corajosos; não havia força capaz de se opor a eles e conquistavam com facilidade o que iam buscar. Possuidor de um tesouro que de modo algum queria perder, preveniu-se armando a orla toda. Ele próprio comandava seus cavaleiros, e mal viu os mágicos navegantes se aproximar, gritou: Detenham-se! Não ousem avançar mais! Sei quem são, e conheço a vossa sanha de derrotar reis para apossar-se de seus tesouros!

Brian respondeu: O rei Asal, não nos censure! Não é por nossa própria vontade que assaltamos reinos. Saiba que foi Ildana é quem determinou essa demanda como resgate pela morte de seu pai. Devemos entregar a ele os tesouros que exigiu de nós. Empenhamos nossa palavra. Como sabe, os reis não entregam seus tesouros de boa vontade. Tivemos de conquistá-Ios pela força e pela morte, e até hoje ninguém foi capaz de nos derrotar. Não ha possibilidade de acordo amigável nesse caso. Se pudéssemos obter esses bens pela paz, esteja certo de que o faríamos.

Se estão aqui é porque vieram em demanda de algum tesouro. Digam-me que tesouro pretendem obter no meu reino? – perguntou o rei.

Os sete porcos mágicos que lhe pertencem é parte de nossa demanda e viemos busca-los.

E pensam conquistá-los de que modo?

Morreremos pelas mãos de nossa tribo se não cumprirmos o que Ildana determinou. É-nos forçoso conquistar o que nos impõe essa demanda. Temos passado dificuldades tremendas e tudo temos sofrido nesses caminhos hostis que o destino nos impôs. As nossas penas não despertam sua compaixão, ó rei? Entregue-nos os sete porcos como prova de seu desprendimento, amizade e bondade, e para sempre terá nosso reconhecimento. De outro modo, lutaremos e tomaremos pela força, matando ou morrendo, que para nós não ha outra saída.

O rei considerou por instantes o assunto, e depois falou: Entrarei em conselho com meus pares para deliberar sobre a questão. Tao logo uma solução seja encontrada, voltarei para lhes dar a minha resposta, disse o rei, e reuniu-se com seus pares. Confabularam, debateram, propuseram soluções, consideraram a sangria que resultaria entrar em luta com esses conquistadores invencíveis, e decidiram, por amor da paz e da concórdia, entregar-lhes com livres mãos e desprendimento de alma o tesouro mágico.

O rei voltou à orla e disse-lhes que concedia o tesouro pacificamente. Podiam pois levá-lo, ele e ninguém do seu reino os impediria, a menos que tentassem, contra a palavra empenhada, agredi-los. Os três quedaram-se em silêncio e pensativos: nunca julgaram experimentar nessa demanda tamanho êxito e tamanha paz. Sempre tiveram de lutar fervorosamente, ou pela força, ou pela astúcia, sempre deixando rastros do sangue alheio e do próprio pelos caminhos onde passavam. A decisão do rei os livrava de uma penosa luta, e esse momento foi de grande felicidade e triunfo para eles. Agradeceram ao rei e ao seu povo com o coração saltando dentro do peito. Iuchar e Iucharba tinham o semblante comovido por essa demonstração de pacifismo.

O rei levou-os ao palácio e recebeu-os com afeto e amizade. Concedeu-lhes repouso, uma mesa com boa comida e bebida para os apaziguar e confortar. Ali puderam ter um momento de descanso em sua jornada sofrida.

No dia seguinte receberam os sete porcos e se fizeram as despedidas, e Brian, para premiar a generosidade e afeto do rei, cantou-lhe estes versos:

Os tesouros que trazemos são nossa dor;

Mas foi de vossa mão que o maior tesouro

ganhamos: o do coração livre e da amizade

que a aflição de nossa tempestade aliviou.

Nobre Asal! Os dias lhe sejam de paz,

a sua casa prospere em tão maior valor

quanto maior a alegria que nos deu.

A verdejante Erin para sempre há de honrá-lo

nos versos do poeta que em tua memória cantará!

Ó filhos de Turenn, para onde seu destino os leva agora? – perguntou o rei. Vamos para Iroda em demanda de Felinis, o cão caçador, disse Brian. Então, retornou o rei, concedam-me ir com os senhores. Minha filha é esposa do rei de Iroda, e tudo farei para evitar luta e sangue nessa conquista. Lá também já chegou a noticia dos seus feitos e toda a costa está protegida por cavaleiros armados.

Os irmãos não viram razão para recusar a benevolência do rei e até se alegraram com o oferecimento. Esse rei pacifista vinha mais uma vez aliviá-los em sua fatigante demanda. Propôs o rei que fossem todos em seu próprio navio. Assim fizeram, os três irmãos embarcaram todos os tesouros conquistados, o barco de Manannan, Varredor de Ondas, todos subiram no navio e partiram para Iroda. Chegaram felizmente e, com efeito, toda a costa estava guardada por cavaleiros armados. Asal desembarcou e rumou para o palácio em missão de paz. Apresentou ao rei, seu genro, a questão dizendo: Vêm comigo os três filhos de Turenn, guerreiros da tribo de Danna, e em seguida contou-lhe a historia dos irmãos, mencionando que entregara pacificamente o tesouro de seu reino, os sete porcos imortais, não só para evitar uma guerra desastrosa, mas por opção pacifista, de que nada nos adiantam bens, por mais valiosos que sejam, se temos de sacrificar nossos irmãos para mantê-los. O grande embaixador, por fim, revelou: E estão aqui para conquistar seu cão caçador. Aconselho entregá-lo pacificamente. São guerreiros poderosos e não há nada que possa impedi-los.

O rei de Iroda não se interessou pelo conselho de Asal, e disse:

Fez um infeliz papel quando decidiu fazer-se embaixador desses impostores. Não existem guerreiros cuja potência e proteção dos deuses seja bastante para dominar o meu cão e levá-lo, seja pela força, seja pela minha vontade.

Vejo que minhas palavras foram inúteis, disse o rei Asal. Reconsidere sua decisão. Reafirmo que é inútil recusar-lhes o cão. Como é um resgate de morte, estão empenhados, e não deixarão de levar o que vieram buscar. Saiba que esses três guerreiros trazem consigo objetos mágicos poderosos, e não há quem possa vencê-los. Derrotaram todos os reis que tentaram se opor a eles. Haverá uma sangria se não consentir que levem seu cão em paz.

O rei de Iroda persistiu em sua recusa: Mostra-se fraco e desonrado rei prestando-se a servir três guerreiros como esses, que vivem de saquear reinos, disse.

Asal não teve mais que dizer. Perturbado e derrotado, voltou aos filhos de Turenn e relatou-lhes a intolerância do rei e o fracasso da embaixada. Os irmãos empunharam as armas e avançaram para dar batalha ao rei de Iroda e aos seus guerreiros. O rugir da espadas começou a executar sua faina de violência e morte. Grandes guerreiros, a vida toda educados na arte das armas, os irmãos venciam a refrega com facilidade. Mas ali havia outros guerreiros hábeis como eles e com esses tiveram de lutar ardorosamente. No embate acirrado que se seguiu, corpos saltavam, giravam, moviam em vôo as armas de ambos os lados, barulho infernal do ferro afrontando o ferro, repipocando faíscas entre os metais e tilintando embates de morte. A luta corria igual entre os adversários. Brian, a essa altura, cercado pelos mais valentes guerreiros de Iroda, viu que ia sucumbir. A Furiosa estava em suas mãos, mas, adormecida, executava seu embate como uma lança comum. Ela estava sob efeito do vinho magico, nada havia que fazer. Brian, atingido mortalmente, caiu moribundo, as forças derrotadas. Porém, quem tem a posse de objetos mágicos não sai derrotado de nenhuma luta. Iucharba veio correndo socorrê-lo, trazia-lhe sua maçã dourada para dar cura ao irmão. Os adversários saltaram sobre ele. Grande guerreiro, ele brandiu sua espada, varreu todos a direita, a esquerda e, mantendo os adversários afastados por um momento, fez o irmão morder a maçã. Brian ergueu-se num salto e saiu rodopiando como um ente sobrenatural, são e fortificado como nunca. Pulava e saltava entre os adversários protegendo os irmãos e dançando ferozmente como quem estivesse possuído de um poder inatingível. Não bastasse isso, Furiosa começou a remexer-se acordando do sono, e passou a dar golpes pela direita e pela esquerda, fazendo tombar indefesos todos que estivessem no caminho. Os guerreiros de Iroda, ao deparar aquela arma extraordinária: uma lança, que se mexia por si mesma como coisa viva, quedaram-se aparvalhados. O rei ordenou que todos recuassem, ele e Brian iam entrar em combate singular, os dois valorosos guerreiros, eles só, corpo-a-corpo em uma luta final, decidiriam quem será o vencedor, quem será o derrotado.

Os dois guerreiros se enfrentaram. Brian não queria matar o rei. Sua intenção era conduzir a Furiosa de modo que, rechaçando o adversário e seus golpes, derrotasse-lhe todas as forças, arrancasse-lhe todo grão de energia e o fizesse fraquejar pela fadiga completa.

A luta foi demorada. O rei, hábil guerreiro, não se arrefecia. Era pesado o combate para ambos. Brian só se defendia rebatendo apenas os golpes do adversário e teve de travar um doloroso embate com a própria arma. A terrível lança, em sua sanha de matar de vez o rei, se retorcia e se esticava para atingi-lo. O rei não mostrou nenhuma surpresa diante de arma tão singular. Lutava fervorosamente, a peleja parecia não ter fim, e pela assistência toda corria um pesado véu de silêncio, imóveis todos os olhos, suspensos todos os rostos, a respiração trémula, ao mesmo tempo admirados de um combate tão espetacular, como esse nunca ninguém tinha presenciado. A força e vigor de ambos os guerreiros parecia imbatível. Não haveria vencedor, pensaram. luchar e lucharba não viam outra saída para Brian que não matar o rei. De modo algum ele o ia matar. O venceria pela fadiga. Tinha como trunfo a maçã mágica, e no momento que se sentiu fraquejar, serviu-se dela para se revigorar. Mordeu a fruta e ressurgiu possante, guerreiro sobrenatural, envolvido de uma força indestrutível. Avançou com mais vigor, e fez a espada do adversária voar. Desarmado, a rei quedou-se derrotado esperando o golpe fatal da morte. Brian, em vez disso, resgatou a arma e a devolveu a seu dono, convocando-o a retornar à luta. A essa altura porém o rei estava quase desfalecido de fadiga. Arriou os braças, mal sustendo a espada nas mãos. Brian levantou-o do chão, levou-o nos braços para Asal e disse:

Veja, Asal, em sua honra entrego esse valente rei em suas mãos. Poderia ter abreviado essa luta e tê-lo matado há muito com minha poderosa arma, mas o poupei, e ele o mereceu. É um bravo valoroso, embora lhe falte o sentimento da tolerância e da concórdia. Mas também já fui assim, e hoje já não sou. O que nisso importa é que o venci. Ganhei seu cão nessa luta. Agora temos negócio de justiça a tratar: desista ele de sua intransigência e me entregue liberalmente o seu cão caçador. Sua negativa vai decretar sua morte. Declare ele sua decisão.

Não havia o que discutir. O rei, reconhecendo que era justa a proposição de Brian, estabeleceu com ele a paz e entregou-lhe o cão. Ganharam a admiração de ambos os reis e de todo o povo. Sua fama ali ficou, para sempre conhecidos como justos e perfeitos guerreiros. Todos que iam em Iroda visitar o rei ouviam falar do espetacular acontecimento que ali se deu com a vinda de três cavaleiros, deuses portadores de forças imbatíveis. Tinham barcos, armas, cavalos e carros mágicas. Reuniam bravura e conduta honrosa no trato de suas conquistas. E foi assim que sua fama se espalhou pelo mundo, chegou ate nós, e esta é a sua história, que ainda não acabou e vai andar por algumas linhas a mais até encontrar seu fim.

E já os vemos adiante no barco mágico de novo navegando suavemente nas águas inquietas do mar. Dormem como crianças indefesas, vão em descanso de cura da luta cruel os filhos de Turenn, esse, que triste e afundado na dor espera em Erin o retorno das suas criaturas e o fim da demanda, feliz ou infeliz, qual seja ele bem sabe no seu coração, e mais o que espera é que seu saber não seja saber mas ilusão de sua inquietude, que também os deuses se iludem.

Nessa altura, em seu solo, aconteceu aos três irmãos esquecer as duas jornadas que ainda lhes competiam na demanda: o espeto de assar e os três gritos na Colina de Midkena. Lugh, por artifícios de magia, soube que os filhos de Turenn já estavam na posse dos objetos mágicos que lhe importavam. Era quanto lhe bastava para ir em batalha contra os Fomore, em Moytura. Tinha pressa em ter em seu poder esses objetos valiosos, e ele próprio, com sua ciência e conhecimento, lançou um encantamento que riscou da memória dos três irmãos as duas últimas partes da tarefa. E sucedeu que, acordando de seu sono de alivio e cura, surpreenderam-se com a constatação de que a demanda estava cumprida, e Brian falou entusiasmado: Irmãos, estamos livres! Cumprimos felizmente a demanda e fomos vitoriosos. Resgatamos nosso erro e já nos redimimos perante Lugh e nosso povo. E hora de voltar e entregar os objetos mágicos que conquistamos para ele: ó tu, barco precioso de Manannan, Varredor das Ondas do mar, Lugh ordena que navegue e nos leve de volta a Brug-na-Boyne.

O barco mudou seu curso e tomou o caminho para Brug-na-Boyne, onde chegaram os dois irmãos. Lugh estava em uma assembléia com o rei, reunida na planície de Tara. Já os filhos de Turenn desembarcavam, ele já sabia que eles Iá estavam com os objetos mágicos de sua estimação. Sussurrou ao ouvido do rei: Os filhos de Turenn estão chegando a Erin. Receba os objetos exigidos, que não me convém por ora encontrar-me com eles, e deixou a Assembléia furtivamente, rumou para Caher-Crofim, a grande Fortaleza de Tara, e ali, depois de entrar, fechou os portões, envergou a armadura de Manannan Mac Lir e a capa encantada da filha de Flidas.

Entrementes, os três irmãos se aproximavam do palácio do rei Nuada. A notícia de seu retorno se espalhou e uma grande multidão veio recebe-los. Vinham no carro conduzido pelos dois cavalos, carro e cavalos de uma beleza esplêndida, tesouros que andam tanto em terra quanto no mar. Traziam consigo as demais conquistas da demanda: as maçãs douradas, que curam os homens de todo mal e doença; a pele de porco, que transforma a água em vinho terapêutico; a lança Furiosa, que mata infalivelmente; os sete porcos imortais, preciosidades que dão saúde eterna e imortalidade a quem deles se alimenta; o cão caçador, brilhante como sol, que paralisa só com a vista toda fera ou animal selvagem. E todos puderam admirar essas grandes maravilhas.

O entusiasmo arrebatou o povo: os heróis foram aclamados com todas as honras e felicitações. Era grande a admiração diante dos tesouros que foram capazes de conquistar.

O rei os recebeu com cortesia, apreciou aquelas maravilhas e perguntou se tinham conquistado todos os tesouros pedidos por Lugh. Brian respondeu: Conquistamos todos os objetos valiosos exigidos. Grandes sacrifícios, sofrimentos, perigos e dificuldades sem conta sofremos nesses caminhos. Queremos a presença de Lugh para entregar-lhe o resgate que nos pediu.

Nuada, o rei, disse: Lugh me encarregou de recebê-los em seu nome. Entreguem os tesouros, mandarei mensageiros em seu encalço e em breve ele virá ter com os senhores.

Foram os mensageiros dar a Lugh a noticia de que os filhos de Turenn estavam de regresso. O rei estava na posse dos objetos da demanda e pedia seu comparecimento na assembléia real para dar por cumprido o resgate e libertar Brian, luchar e Iucharba.

Lugh escutou a mensagem, e partiu. Ali chegando, recebeu das mãos do rei os objetos conquistados pelos filhos de Turenn, examinou tudo e disse: Com efeito, os filhos de Turenn conquistaram tesouros, os mais apreciáveis, que lhes competia nesse agravo. Porem, faltam aqui a duas últimas partes, e como sabem, O rei e nobres aqui presentes, um resgate deve ser cumprido em todas as suas partes, ainda mínimas que sejam. Os senhores, povo da tribo de Danna, testemunharam o compromisso do cumprimento integral do resgate. Vejo aqui as três maçãs, a pele de porco, a lança Furiosa, o carro e os cavalos, os sete porcos e o cão caçador. Mas onde estão o espeto de assar? Também não ouvi os três gritos na Colina de Midkena!

Era grande o atordoamento dos três irmãos. Nesse instante caiu-lhes de volta na memoria a parte da demanda que faltava conquistar: Ah, que infelizes eram! Julgaram-se livres, e a grande fortuna que pensaram ter conquistado para si mesmos não passava de um erro de julgamento causado pela traição de sua memória. Era-lhes incompreensível o seu esquecimento. Sem ter o que dizer, saíram em silêncio da assembléia e foram para a casa do pai. Contaram a Turenn e a sua irmã, Ethnea, a sua infelicidade. Teriam de partir novamente em demanda do que ainda faltava para conquistar sua liberdade.

Turenn, os olhos envoltos em sombras e tristeza, disse: Ah, meus filhos, esse esquecimento foi efeito de magia do poderoso Ildana. Confirma-se o que eu previa, e não mencionou o seu triste pressentimento, que também os três irmãos já o tinham na pesada atmosfera de desalento e dor que não os deixava desde a entrevista com Lugh. Tudo encontrará seu fim, continuou Turenn, conforme o fio que esses eventos tecem, e não nos resta mais que envergar nossas forças para suportar o que ainda e mister sofrer.

Ethnea chorou a sorte dos irmãos, e para os aliviar acompanhou-os para sua nova partida rumo a suas aventuras, que pareciam nunca chegar ao fim. Ali se despediu deles e retornou para o pai, em quem a dor esmagava todo o ânimo.

Rumaram para a ilha de Fincara, mas não a encontraram. Por três meses vagaram pelo mar aportando em várias ilhas e procurando por quem lhes pudesse indicar a localização do seu destino. Não encontraram ninguém que soubesse da existência de Fincara.

Ah, irmãos, nosso sofrimento não tem fim, disse Brian. É nosso destino navegar sem rumo pelo mar, em desatino, procurando a trilha de uma terra que não sabemos onde está. E já não temos o barco de Manannan, Varredor das Ondas, que aplaina toda a turbulência das águas. Agora, as ondas nos fristigam o corpo de cansaço e nossas forças ficam à mercê da violência desse caminho instável de aguas por onde temos de percorrer.

Certo dia resolveram deixar o alto mar e voltar para a costa de Erin. Contornaram a orla, entraram no mar de dentro e navegaram em direção ao mar de Moyle. Aproximaram-se da costa de Alba, e ali desembarcaram adentrando a terra, onde encontraram um ancião, de longas barbas e de feições veneráveis. Perguntaram se ele sabia onde ficava a ilha de Fincara: Os senhores buscam uma ilha submersa nas profundezas do mar. A ilha de Fincara uma vez já esteve na superfície, ficava entre Erin e Alba, mas há muito tempo, por efeito de encantamento, foi engolida pelas águas.

Retornaram à embarcação. Brian, destemido, vestiu seu traje de mergulho e colocou o seu elmo de cristal. Com esses trajes apropriados para entrar no fundo das águas, ele submergiu sozinho, desaparecendo da vista dos irmãos, que ficaram à sua espera no barco.

Nadou no fundo do mar por longo tempo até encontrar a ilha de Fincara. Tinha muitas habitações, entre elas, uma se destacava grandiosa e imponente. Para lá se dirigiu e, encontrando as portas abertas, entrou. Viu tão esplendorosas mulheres, que ficou maravilhado diante de tão agradável visão. Executavam todo tipo de tarefas artesanais: bordados com fios de ouro, capas de fina seda e preciosos vestidos. No centro, sobre uma mesa, viu um espeto brilhante.

As mulheres o notaram e o acompanharam com o olhar enquanto ele, em silêncio, caminhou para a mesa, arrebatou o espeto e rumou para a saída da mesma forma como entrou. Nenhuma delas disse palavra, seus olhos pararam nele admirando sua beleza masculina e sua ousadia. Antes que pudesse alcançar a porta, elas explodiram numa sonora gargalhada, e uma delas, a que presidia o trabalho de todas, disse: O senhor é muito ousado, ó filho de Turenn. Sabe porventura que somos em número de 150 mulheres e que a menos poderosa é capaz de lhe impedir de levar esse espeto, ainda que seus dois irmãos estivessem aqui para o ajudar?

Contudo, entrou aqui sabendo o risco que corria. É valente e coragem não lhe falta, meu bravo guerreiro. Tem o nosso apreço, e por sua ousadia, seu valor, elegância e beleza de porte, lhe oferecemos como prêmio esse espeto que pretende furtivamente nos tirar.

Brian voltou-se, e lhes fez uma reverência, ao que a outra acrescentou: Temos muitos espetos como esse. Vá em paz. Ele foi e nadou para a superfície levando o prêmio conquistado. luchar e Iucharba esperavam pelo irmão, e a longa espera já os fazia acreditar que o irmão tinha sucumbido na busca. Estavam já para partir quando viram brilhar o elmo de cristal e surgir Brian envergando o espeto de assar, a penúltima tarefa da demanda. Os irmãos o felicitaram e todos, aliviados, trataram de rumar em busca de cumprir a última parte da demanda. Navegaram até alcançar a orla e costear o soberbo monte onde Midkena os viu chegar e antes que desembarcassem ele gritou: Filhos de Turenn, aqui encerra-se sua jornada, há muito os espero. Lutem! Não sairão destas margens sem pagar pela morte que deram a Kian, a quem ensinei minha arte e amei com a maior das ternuras, disse e avançou preparado para combater.

Brian permaneceu calmo. Nem o olhar de fúria de Midkena nem a ameaça de suas palavras o fizeram temer ou recuar. Avançou para a luta. Os dois guerreiros se atracaram. A fúria do combate soou perturbadora no ar: as armas tilintavam, os combatentes lançavam urros entre si, a fúria dançava entre saltos e retorcimento de ambos na luta.

Os três filhos de Midkena, ao ouvir o rumor fervoroso da batalha, correram para ajudar o pai. Ali chegaram tarde. O pai tombava transpassado pela espada de Brian. Avançaram ferozes contra ele. Iuchar e lucharba acorreram em socorro do irmão, e começou uma severa luta entre os três filhos de Midkena e os três filhos de Turenn. O combate que ali se travava foi espantoso. Assolavam-se os dois grupos entre apupos de guerra e golpes violentos, cada um assomando com terrível força contra o adversário. As espadas furiosas debatiam-se entre si infatigáveis, soaram os metais ecoando o tilintar continuo de forças que se chocam com violência. Seria um espetáculo admirável de se ver, não fosse a violência da morte que os espreitava, na iminência de fazer tombar, quais entre aqueles grupos de irmãos em luta?

Já Os três filhos de Turenn estavam cobertos de feridas, o sangue escorria e as espadas de ambos os lados continuavam golpeando ferozes entre si nos embates dos corpos em luta. A cada novo golpe recebido, a espada voltava erguida com inacreditável força pelos braços do ferido, e ia lançar-se contra o seu agressor. Os três filhos de Midkena, com um salto espetacular, fugiam ao golpe com incrível destreza. Eram com efeito grandes guerreiros, que receberam de seu pai, mestre na arte das armas, os segredos da invencibilidade. A luta seguia e se fazia interminável, imprevisível o desfecho, imponderável sem resultado. Ambos os lados se igualavam na arte das armas, e embora feridos, erguiam-se infatigáveis na luta.

Os três filhos de Turenn caíram sobre os joelhos lado a lado, os adversários avançaram para o golpe fatal. Imprevistamente, num salto estudado eles se levantaram simultâneos, a espada no pulso firme cada um transpassou os adversários. Os filhos de Midkena tombaram, esvaída toda a força da vida, o véu da morte os veio cobrir, silenciando enfim o rumor de sua fúria.

Terminada a luta, os filhos de Turenn desabaram de cansaço e dor. Começaram a sentir vivamente as feridas. Eram tantas e tão profundas, que latejavam e todo o corpo padecia um sofrimento pungente. Tombados por terra ali se deixaram ficar, incapazes de movimento e de palavras, mudos, as pálpebras derreadas, como se em breve a morte os viesse tomar.

Brian levantou as pálpebras e perguntou aos dois irmãos se ainda viviam: estamos vivos, irmãos, mas vivos que estão atravessando os umbrais da morte.

Queridos irmãos, retomou Brian, levantemos e, enquanto há vida em nosso corpo, venham comigo cumprir a última parte de nossa demanda. Sinto a morte próxima e ainda não chegamos ao fecho de nosso compromisso, os três gritos no topo do monte de Midkena.

Os irmãos não se moveram. Estavam muito fracos para subir o morro e ainda dar três gritos. Brian, reunindo todas as forças que ainda lhe mantinham a vida, carregou os dois irmãos ao topo do monte, deixando atrás um traço de sangue, e ali os três, convocando suas forças, deram os três gritos que lhes foram exigidos.

Brian conduziu seus irmãos para o barco e rumaram de volta para casa. Navegavam pelo mar e em certa altura Brian voltou os olhos para Oeste e falou: Ah, irmãos, vejo Bem-Edar que se eleva das águas e posso ver também Dun Turenn ao norte. Iuchar, deitado perto de Iucharba, disse: Desejaria entrever, mesmo que apenas num relance, Bem-Edar. Essa visão poderia nos trazer de volta as forças e nos devolver a vida que nos foge. Irmão, sei que nos ama. Vem e ampare nossa cabeça em seu peito para que também vejamos Erin novamente. Deixa-nos olhar nossa terra, nosso lar.

Brian tomou a cabeça de cada um de seus irmãos, amparou-as sobre o peito e eles contemplaram as montanhas rochosas, as encostas verdejantes de Bem-Edar, e iam com os olhos presos na paisagem de sua terra enquanto o navio para Ia se dirigia.

Chegaram finalmente e desembarcaram ao norte de Bem-Edar, e dali seguiram para Dun Turenn. À entrada, Brian gritou: Querido pai, estamos de volta, vem receber seus filhos!

Turenn acorreu ao encontro deles. Viu-os cobertos de feridas, fracos, retornados à sua casa para morrer: Amado pai, vai depressa, procura Lugh, entrega-lhe o espeto de assar, e diz-lhe que a última parte da demanda também foi cumprida, e que aqui estamos à morte, feridos gravemente na batalha que tivemos de enfrentar para cumprir fielmente a sua exigência. Pagamos o resgate pela morte de Kian, e tudo foi cumprido. Traga-nos as maçãs do Jardim das Hespérides para curar-nos e nos devolver a saúde.

Turenn apressou-se, cavalgou em disparada até chegar a Tara. Entregou o espeto de assar a Lugh, e disse: Meus filhos cumpriram toda a demanda, também os gritos no alto do monte de Midkena. Estão feridos de morte. Peço-lhe que me entregue as maçãs douradas para curá-los.

Não posso lhes dar essa cura, disse Lugh. Praticaram um ato mau matando meu pai impiedosamente. O sangue que derramaram é o fio condutor que determinou-lhes o destino. Está tudo cumprido. E inútil levar as maçãs. Sua magia só atua enquanto em sintonia com o fio que trança todos os eventos de um ato. A jornada de sofrimentos exacerbados que enfrentaram trançou o fio, e não há volta. A morte é que pode tudo apaziguar e redimir. Esse é o fecho natural.

Turenn voltou para os filhos, com o coração despedaçado, a toda pressa para estar com eles na hora da morte.

Brian viu o pai chegar de mãos vazias, todo em tristeza, e adivinhou tudo. Voltou para seus irmãos, juntou-se a eles e a vida deixou os três no mesmo momento.

Turenn e a filha Ethnea deram as mãos e cantaram um lamento:

De mim a vida se esvai e a hora é de agonia

Nenhum consolo haverá que me alivie o mal

Ah, quando soube que o alento me fugiria

E a dor me arrebatasse no seu véu fatal?

Não chegou a terminar, caíram mortos sobre os corpos dos heróis e nesse momento rompeu-se o fio de sua linhagem. Terrível a sorte desses que se despediram da vida com dor tão extrema. O que foram antes de sua jornada apagou-se no sopro do vento. De sua vida só ficou esse período, curto de extensão, maior que sua vida inteira. Foi por essa travessia épica no seu oceano de vida na nau mágica de Manannan que sua história atravessou os tempos e sua memória imprimiu-se permanente.

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Lugh, Tailtiu e Lughnasadh

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Em razão do festival de Lughnasadh, (o qual por motivos de Gesso não celebrarei com meu grupo, fisicamente,mas em espírito estamos sempre juntos.)  também conhecido como Lammas (Lê-se “lamas”) ou Festival da Primeira Colheita

Celebrado no dia 2 de Fevereiro no hemisfério Sul e no dia 1º de Agosto no hemisfério Norte.

Os festivais se pronunciam como abaixo:

  • Lughnasad= pronuncia-se Lunasá.
  • Lammas= pronuncia-se Lamas.

Celebrarei meu festival de uma forma diferente da qual imaginei, mas não menos importante e não menos intensa, assim presto minha homenagem a Lugh e Tailtil sua mãe adotiva, através deste textos e contos.

Mas antes um pouco de história – Transcrevo abaixo um texto da BDO escrito pelo excelente Eilthireach.

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Conhecendo Lughnasadh

Também conhecido como Lammas, ou primeira safra, o nome deste festival como Lughnasadh é gaélico irlandês para “Comemoração do Lugh”.  O significado permanece basicamente o mesmo: Lugh é a divindade de Lughnasadh, e não é uma festa.

Embora Lugh dê o seu nome a este festival, ele está mais  associado, com a mãe adotiva de Lugh, Tailtiu, que se diz ter aberto o caminho para a introdução da agricultura na Irlanda, o que liga Lughnasadh  a terra e da colheita.

O nome gaélico irlandês moderno para o mês de agosto é Lúnasa. Em gaélico escocês Lunasda significa a 01 de agosto.

Uma das várias fontes históricas para os quatro festivais de fogo celta –  Imbolc, Bealtaine, Lughnasadh e Samhain é o conto irlandês cedo “Tochmarc Emire” (A corte de Emer), que faz parte do Ciclo de Ulster, estima-se que o conto foi escrito no século DC 10º ou 11º, mas é seguro afirmar que este conto – como tantos outros – que contém um núcleo muito mais antigo.

O conto narra como o herói Cú Chulainn está cortejando Emer. Ele recebe várias tarefas a cumprir, sendo um deles o que ele deve ficar sem dormir por um ano. Como Emer pronuncia o seu desafio, ela nomeia os quatro principais pontos do ano celta Irlandês, escolhendo os primeiros dias de cada estação.

Um destes dias é Lughnasadh, marcando o início da queda. Realiza-se no dia 1º de agosto,( 1 de fevereiro no esmiferio sul) uma data internacionalmente aceita, ou no dia da lua cheia seguinte a esta data, mas se você quer comemorar como os antigos celtas a celebração tem lugar na noite antes da data do calendário, isso porque para os celtas, o dia começava ao pôr do sol e não a sua aurora.

Lughnasadh marca o início da descida visível do Sol para a escuridão do inverno. A partir da conexão entre a Terra (princípio feminino) e Sol (princípio masculino), o casamento do Céu Pai (Deus Sol) com a Mãe Terra, celebrada no Bealtaine, surgem os frutos da primeira colheita do ano. Lughnasadh é um momento de alegria sobre os primeiros frutos. É também um momento de tensão, porque os dias escuros do inverno estão chegando mais perto, e mais da colheita não é trazido e armazenados longe ainda.

O Deus da colheita é o Green Man (também conhecido como John Barleycorn). Ele se sacrifica a cada ano, a fim de permitir a vida humana na Terra. Em algumas áreas de sua morte é lamentada com coroas de flores decorados com papoilas ou flores dos cereais..

O grão é cortado, parte dele vai para pão e nutrição, outra parte é guardado e usado como sementes na próxima primavera, para criar uma nova vida. Olhando para isso, pensamentos sobre sacrifício, transformação, morte e renascimento também fazem parte do Lughnasadh.

A celebração de Lughnasadh inclui o corte ritual do primeiro grão e uma oferta do mesmo, possivelmente são os bastidores de um primeiro banquete com os frutos da colheita, assim o outro  nome usado para Lughnasadh é “Lammas”, a partir do Anglo-saxão antigo –  “hlaef-mass” (massa pão, massa, onde o primeiro pedaço de pão é consagrada), que evoluiu para a tarde medieval Inglês e Escocês “Lammas”. Como tal, ele é mencionado pela primeira vez em antigas crônicas anglo-saxónicos, já em 921 dC como “Festa das Primícias”. Em uma sociedade agrícola do início da colheita era uma ocasião singular para comemorar e dar graças ao Divino para seus dons.

Na tradição da Baviera, o mais importante festival em agosto é a “Ascensão de Maria” no dia 15 de agosto. Neste dia, numerosas procissões pelas aldeias e ao longo dos campos são detidos. Durante essas procissões, feixes de ervas decorado, composto por até 77 ervas diferentes, são realizadas ao longo de varas de madeira. Estas ervas são especialmente consagrada e armazenados longe então.Eles são usados ​​para a queima de incenso ritual no final do ano, por exemplo, durante as noites “ásperas”, o tempo do solstício de inverno. Um nome mais velho para este festival é “Maria Kräuterweih”, que significa “Dia de Maria e da Consagração das Ervas”.

Os costumes Lughnasadh originais, obviamente, mudou-se para dia 15 de agosto devido as feiras ligadas a esta época,  Lughnasadh é o, portanto, apenas um dos oito festivais celtas que não sobreviveram na Baviera como uma celebração compacto em ou perto da data original (01 de agosto). Celebrações da colheita em vez disso estão dispersos por todo o agosto.Isso pode ter a ver com a situação geográfica da Baviera, onde agosto tende a ser um mês bastante quente, e da colheita e queda são um pouco mais tarde do que em outros lugares.

As deidades de Lughnasadh são Danu (Anu), a Mãe dos Deuses e Homens, e Lugh, o padroeiro dos estudiosos, artesãos, guerreiros e magos. Lugh é também conhecido como Lugh Samildanach (o Muitas habilidades) e Lugh Lámhfada (Lugh do Braço de Long). Este último epíteto  é disputado entre os autores se esta refere-se a lança mágica de Lugh ou para os raios do Sol Lugh , que a Luz solar e não o sol em si, e parece ter sido adorado, como seu grego e correspondências romanos Hermes e Mercúrio, principalmente em elevações, morros ou montanhas.

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A planta de Lughnasadh é qualquer forma de grãos ou cereal, em um sentido mais amplo todas as frutas de campo e jardim.O significado de Lughnasadh nos planos internos é o início da colheita dos frutos que temos semeadas na primavera. Quais as coisas ou projetos estão colhendo em nós no momento? O que gostaríamos de terminar, o que para começar de novo? Será que temos a percepção de que a cada safra, há uma necessidade de preparação?

A essência do Lughnasadh é a alegria da vida sob o conhecimento de que os tempos mais escuros estão se movendo. Nós tonar os raios quentes do sol e armazenar o seu poder para os próximos tempos. No momento em que celebramos o próximo festival, Alban Elfed, será o cair e os dias quentes de verão já serão uma memória.

Claro Lughnasadh é um momento muito bom para expressar gratidão aos deuses e os espíritos da terra por suas bênçãos e dons que nós estamos recebendo agora.

Em tempos de micro-ondas e pizza congelada pode parecer anacrônico parar pra agradecer pela colheita. Muitos dos nossos produtos alimentares modernos tornam difícil ainda reconhecer o grão acenando no campo. E ainda há uma maneira de se conectar com a natureza através do alimento que nós comemos. Isto é especialmente válido para os frutos auto-colhido. Mas também alimentação consciente, comer com foco na comida e não na frente da  TV ou jornal, é uma forma de expressar os nossos agradecimentos para a colheita – durante todo o ano, mas especialmente em Lughnasadh.

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E agora um pouco de mitologia:

 O Nascimento de Lugh

Conta-se que os Fomore sempre existiram na Irlanda. Contemporâneos da terra, nasceram com a terra, e ali habitaram desde que o mundo passou a existir. Já a Irlanda existia, também os Fomore existiam. E só ali? Não sabemos, o que sabemos é que estavam ali. Eram enormes e deformados. Alguns tinham cabeça de cavalo, bode ou touro; outros tinham apenas um braço ou uma perna. Divindades escuras, portadoras dos poderes do mal e das trevas, filhos da escuridão e do abismo do mar, do caos e da noite. Uma raça cruel e violenta.

O mais terrível deles era Balor, cujo pai tinha cara de boi. Mas o que distinguia Balor era seu olho, temível olho, possuidor de um poder maligno capaz de matar quem se visse sob sua mira. Não foi a natureza de sua raça que o dotou desse olho mágico destruidor. Foi sua extrema curiosidade. Certo dia as feiticeiras de seu pai preparavam uma poção mágica. Saía do caldeirão fervente uma fumaça espessa de natureza mortal. Balor olhou bisbilhoteiro pela janela. A fumaça o atingiu e impregnou de sua força maligna um de seus olhos. Desde então adquiriu a capacidade de matar e transformar em pedra todo ser vivo a quem olhasse. Nem deus nem gigante podia escapar ao seu olho maligno. Os Fomore se reuniram para deliberar sobre o seu destino. O principal dilema que os perturbava era o perigo que Balor representava para a própria sobrevivência da raça. Não desejavam matá-lo, e, depois de muito ponderar, encontraram uma solução: Que ele mantenha sempre fechado seu olho mau para nossa própria paz! — disseram enfim apaziguados.

Sim, Balor viveria, decidiram, sob a rígida condição de que ele mantivesse seu olho maligno resguardado sob as pálpebras, de onde nunca podia revelar-se ao mundo nem aos Fomore. E foi assim que, embora tivesse dois olhos, era como se tivesse apenas um. Desde então passou a ser chamado Balor-do-Olho-Maligno.

Nem todos da raça Fomore tinham aparência monstruosa.

Euathan, um de seus chefes, era uma presença magnífica aos olhos, um príncipe da escuridão. Trajava um manto trançado de fios de ouro, preso com um broche também de ouro engastado com uma pedra preciosa que brilhava magnificamente. Sob o manto trazia sempre uma camisa toda em fios de ouro reluzentes. Suas lanças eram de prata engastada em cabo de bronze; sua espada tinha punho e prendedor de ouro.

Seu filho Bress não era menos belo. Nascera de seus amores furtivos com Eri, bela deusa da tribo de Danna, deuses de grande poder mágico que nesse tempo viviam nas cidadelas de Findias, Gorias, Murias e Falias, regiões ocultas onde ninguém podia chegar. Elathan veio secretamente pelo mar, tomou Eri, com ela se deitou e copulou. Ao partir, entregou-lhe um anel dizendo que não o desse a ninguém, salvo àquele em cujo dedo o anel se ajustasse com perfeição. Num futuro ainda distante, o possuidor da jóia viria ao seu encontro, disse e partiu. Cumprido o tempo, Eri deu à luz Bress. Apropriado nome, que significa “belo”. Ele cresceu e de tal modo sua beleza era impressionante, que passaram a dizer: “E um Bress” para referir a todo objeto cuja beleza sensibiliza o olhar. Seja homem, mulher, seja objeto material seja paisagem encantadora aos olhos. Esses deuses então vieram para Erin numa nuvem mágica, e ali passaram a habitar, e ainda hoje na Irlanda tudo que é belo recebe esse elogio nascido desse deus escuro engolfado na poeira da memória.

Entre os muitos dias havidos entre o povo Fomore, chegou aquele em que Balor-do-Olho-Maligno foi empossado rei. Nessa ocasião ouviu uma profecia: “Balor, Balor, o seu neto há de matá-lo!”

Ele procurou a solidão e se retirou para pensar em sua sina. Abriu seu olho maligno, e uma rajada fumarenta queimou o chão onde pisava. Recolheu de volta o olho entre as pálpebras: Aquieta, poção que me encheu de ira e desigualdade entre os meus. Esconde seu vítreo veneno nessa cova onde olho algum pode penetrar. Aquieta, furor! Tenho apenas uma filha, minha Ethlinn. Oh, Ethlinn, você, que era para gerar a minha descendência, está prometida a gerar a minha morte. O destino é impiedoso. Como de mim então nascerá o meu maior inimigo? Hei de desviar o censo dessa maldição!

Entreabriu rápido a pálpebra de seu olho mau, e, antes que dele escapasse a ira de seu veneno mortal, o trancou de volta no seu recinto escuro. Saiu apressado, foi ver a filha pela última vez, e dali foi prescrever suas determinações. Mandou construir uma torre no alto de uma escarpa na Ilha Tory, ali prendeu a filha e a exilou do convívio comum. Convocou doze guardiãs para a vigiar e impedir que os olhos de Ethlinn vissem homem, e mesmo evitar que soubesse que no mundo pudesse haver outro sexo além do seu. Nessa reclusão Ethlinn cresceu e tornou-se mulher de surpreendente beleza.

Aconteceu porém que Kian, da tribo de Danna, tinha ama vaca mágica. Seu leite era tão abundante, que todos a ambicionavam. Para evitar que a roubassem, ele a guardava com estrita vigilância. Kian tinha dois irmãos, um chamava-se Kethen; o outro, Ku, era ferreiro, forjador de armas e artífice dos Danna. Balou ambicionou possuir a vaca mágica de Kian, e vivia espreitando o momento certo para roubá-la.

Balor viu o momento azado quando, espreitando Kian em sua faina, ouviu ele e seu irmão Kethen conversarem sobre as armas que Ku estava forjando para eles. Era preciso, diziam, levar à forja os melhores metais para que o irmão tivesse material adequado a armas invencíveis: Não posso deixar minha vaca à mercê da sorte, irmão, e convém que um de nós fique aqui para guardá-la. Vou eu levá-la e não se afaste daqui por nada, disse Kian.

Estava ali à mão a hora de obter a vaca almejada. Balor apareceu a Kethen sob a forma de um menino. Teceu intrigas dizendo a Kethen que tinha ouvido Kian e Ku planejarem usar o melhor metal para fabricação de suas armas e deixar o metal comum para a arma de Kethen.

Ele ficou furioso, deixou a vaca aos cuidados do falso menino e correu para a forja a fim de frustrar o plano dos irmãos. Constatou que fora enganado. Ao contrário do que tinha ouvido, Kian e Ku trabalhavam no melhor metal para a fabricação de sua arma, e nada havia neles que denunciasse a mínima intenção de fraude.

Kian, ao vê-lo ali em hora tão inoportuna, quis saber o que tinha sucedido a Kethen para abandonar sua vaca preciosa e ir ao encalço deles. Ele lhe contou tudo, cabisbaixo e envergonhado. Agora a coisa estava perdida, pois tinha deixado o menino mentiroso tomando conta da vaca. Kian levou as mãos à cabeça: Você foi leviano, irmão, certamente era Balor disfarçado. Ele levou minha vaca para a ilha Tory. Isso é irremediável, mas hei de me vingar.

Kian foi imediatamente buscar o conselho de Biroge, o druida:

Meu querido Kian, Balor pensa que pode reverter a ação do destino. Doze guardiãs vigiam sua filha em uma torre isolada para impedir que ela conheça homem. Não será difícil transpor essa vigilância. Ouça o que digo e me siga.

Biroge transmutou a aparência de Kian e, por antes mágicas, o levou transvertido de mulher através do mar. Chegaram à torre e se apresentaram para as guardiãs de Ethlinn como duas mulheres que tinham se lançado ao mar para fugir de raptores. Não sabiam onde estavam e pediram abrigo. Foram recebidas. Biroge encantou as guardiãs, de modo que ficassem em estado de dormência. Outro encantamento trouxe de volta pana Kian suas formas masculinas, fê-lo belo e desejável para uma moça que nunca tinha visto homem e o conduziu a jovem Ethlinn. Ela olhou admirada aquela figura masculina, e Biroge, com um vibrar de sua vara mágica, fez aflorar na jovem o desejo natural da vida que deseja criar vida. Como se há muito esperasse a vinda de um homem, Ethlinn recebeu aquele moço como a um deus, e o amou. Passaram toda a noite juntos no intimo entrelaçamento de seus corpos, ambos entregues ao amor, ele para vingar-se de Balon; ela porque sentia brotar no corpo todo o fervor de sua fertilidade feminil. Amaram-se férvidos, e, desejosos de reter o gozo do amor, Kian a atravessou com o fogo de seu Órgão viril nove vezes. Ao amanhecer, Biroge e Kian desapareceram subitamente do mesmo modo como tinham chegado. As guardiãs ouviram Ethlinn cortar que a noite lhe aparecera uma criatura muito diferente dela; tinha experimentado um entrelaçamento caloroso e delicioso de corpos. Ele a tinha atravessado com um órgão espesso e rijo, macio e aveludado. Ela sentiu que a vida e a morte vibravam nela simultaneamente e uma penetrante sensação de prazer lhe ficou impressa em todo o corpo e sentimentos. Nunca tinha suposto que tais coisas pudessem existir. As guardiãs, ao ouvirem esse rebato, adivinharam tudo e temeram a fúria de Balor. Trataram de convencer Ethlinn de que ela tivera um sonho e nada mais disseram sobre o assunto. Mas no devido tempo, Ethlinn deu à luz três meninos.

A notícia desse acontecimento chegou a Balor. Furioso, principalmente tomado de um temível medo, sentiu que novamente era preciso interpor sua mão para deter o curso dos acontecimentos. O destino teimava e lhe dizia que três crianças nascidas de sua estirpe vinham ao mundo, uma delas, qual das três, destinada a matá-lo? Mandou tirar as três crianças à mãe, levá-las ao profundo mar alto e afogá-las, a todas. Nem uma ficasse.

O homem encarregado dessa ordem tomou as crianças, enrolou-as juntas em um pano cuidadosamente preso com broches e as levou como se carregasse um saco. No momento que começou a deslizar pela enseada, um dos meninos moveu o braço e, por artes de magia, o broche que o prendia aos panos se desprendeu. A criança escorregou e caiu na pequena baia. O homem achou que ela morreria e a deixou para trás. As outras duas foram afogadas de acordo com a ordem de Balor. De volta, o mensageiro deu conta ao seu amo de que tudo fora cumprido, e Balor, contente e apaziguado, moveu seu olho perigoso sob as pálpebras.

O que Balor não podia adivinhar é que a negligência do homem tinha deixado a obra incompleta; o menino abandonado na baía tinha um outro destino entre os deuses Danna; matá-lo a ele, Balor, não passava de circunstância mínima relacionada com uma façanha maior que essa criança recém-nascida, fruto de sua estirpe, estava destinada a realizar. Nem artes mágicas nem bem planejados atentados tirariam a sua vida. Ela viveria e cumpriria o curso prescrito. Biroge, o druida, é quem veio recolher o menino caído na baia e levá-lo ao pai, Kian, que o recebeu contente de ver brotar de sua noite amorosa com Ethlinn aquele fruto continuador do fio de sua raça e estirpe. Consagrou a criança e lhe deu o nome de Lugh. Depois o entregou a Ku, o ferreiro, para criá-lo, ensinar-lhe o próprio oficio e tomá-lo hábil em todos os ofícios e artes.

O menino chegou à adolescência e os Danna o deixaram aos cuidados de Duacha, “O Escuro”, rei da Grande Campina, Terra dos Imortais, Terra da Eterna Felicidade, e ali longe da vista dos povos do mundo de cá viveu imperceptivelmente até tornar-se adulto. Entronado em todas as ciências e habilidades, obteve o conhecimento de tudo. Detinha os atributos solares do poder universal, que lhe davam a posse dos segredos de todas as artes, de toda a força e de todo o saber, conhecedor tanto da medicina terapêutica, quando da música e da poesia. Em breve, o povo da tribo de Danna veria chegar esse deus radiante de luz para coabitar com eles.

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8ª Semana para Brigid – Aspectos e variações

Creio que já abordei todos os Aspectos de Brighid, conhecida como uma Deusa trina e senhora dos 3 fogos:Cura, Inspiração e Forja.

Assim abordarei seus aspectos ligados a fartura, vida e nutrição- Vejam  Brigid é associada as águas da irlanda, de fato não há um poço ou nascente que não seja dedicado a Brigid ( Seja a Deusa ou a Santa) ou a  Maria mãe de Cristo.

A música e poesia são associadas com a água, como citado,  outro domínio de Brigid,era reverenciada como “Senhora das fontes sagradas”, que uniam simbolicamente o mundo subterrâneo, mediano e o superior, por nascerem na escuridão da terra, fluírem para a superfície e refletirem a luz do céu. Da mesma forma, as ideias e visões ocultas do subconsciente podiam ser reveladas pela inspiração e intuição, energias sutis que fluem até hoje livremente para a mente consciente e racional, não temos como saber se os povos daquela época tinham tais conhecimentos, mas me parece muito apropriado que uma Deusa da magnitude de Brigid seja ligada a fonte de vida e nutrição.

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Várias de suas lendas, seja a Pagã ou a Cristã – Brigid usa a água para a cura, ou o poço era abençoado e sua água tornava-se curativa. Essa crença é tão forte que se diz que Brigid       ( não especificando se a Santa ou a Deusa) foi até Glastonbury na Inglaterra  um lugar sagrado e  muito ligado ao arquétipo de Brigid, pois a forma do seu relevo topográfico parece uma ovelha (animal ligado a Deusa, como veremos a frente) e lá abençoa o Poço de água dizendo que muitos iriam até lá para se curar.

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Ocorre que este é o mesmo poço em que os Cristãos acreditam estar o cálice do Graal, levado até lá por José de Arimatéia. Novamente é impossível desassociar a Deusa da Santa.

E de fato atualmente inúmeros peregrinos buscam as bênçãos de Brigid nos seus lugares sagrados não apenas em Chalice well, mas em Kildare (onde ainda existe sua antiga fonte, a catedral e uma nova igreja), Faughart (o lugar onde ela nasceu e onde vários locais são a ela associados), ambos na Irlanda e as Ilhas Hébridas (cujo nome é associado à Deusa) na pequena colina de Bride’s Mount  há uma gravura da Deusa (ao lado da sua vaca) sobre o portal da igreja na colina do Tor lembram a estadia da Santa durante algum tempo na cidade. Na fonte sacra de Chalice Well sacerdotisas do Goddess Temple realizam rituais e bênçãos no Sabbat Imbolc. Existem inúmeras fontes (chamadas Tobar Brighe Clootie Wells) na Irlanda, Escócia, Grã-Bretanha, onde colares, rosários, tranças de fitas, cruzes de palha e pedaços de roupas dos doentes amarrados nas árvores ao redor, comprovam a continuidade do culto de Brigid, como Deusa e Santa, até hoje.

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Outra variação de Brigid é sua associação ao Leite e a lactação. Assim ela se liga tanto a fartura quanto a proteção das Parturientes, não acaso um dos  nomes de seu festival é Oimelc – a lactação das Ovelhas.

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Muitas histórias conectam Brigid ao leite e ao gado, as mais marcantes para mim são a que conta que ela chegando numa aldeia, não havia leite para as crianças, assim ela transforma a fonte de água numa fonte de leite, e esta só voltava a verter água, quando todas as crianças já haviam se saciado.

Em outra transforma todos os barris de cerveja de uma cidade em leite e água para os necessitados.

Em outra lenda Brigid se apieda de um fazendeiro que tudo perdeu e empresta suas três vacas mágicas , para que ele se restabeleça.

Uma Gueise ( Gueise – são proibições mágicas) importante sobre o rebanho de Brigid  é que ninguém podia tocar no seu rebanho ou tirar leite de suas vacas sem sua permissão. Certa feita um mercador para saciar sua sede não percebe que é o rebanho sagrado, e tira leite de uma das vacas, na mesma hora ele enlouquece e se esquece de quem é ou o que fazia em outras  versões da lenda, ele desafia a Deusa e toma o leite, ficando assim cego, ou coberto de pústulas, ou ainda morre queimado, a versão varia conforme o condado em que é contada.

O que de qualquer forma, seria algo bizarro para uma Deusa tão benevolente quanto Brighid! Mas isso fica para o próximo post.

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